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Brasil República

A Bossa Nova

Por Claudio Recco

Introdução
A Revolução de 1930 deu inicio as primeiras mudanças estruturais no Brasil, na medida em que a lavoura tradicional de exportação perdeu espaço na economia nacional e a industria conheceu desenvolvimento significativo, a partir de então. Os cafeicultores foram os grandes prejudicados e ao mesmo tempo projetou-se a expansão industrial, aproveitando o espaço que se abrira na economia mundial, fruto da crise que se iniciara no ano anterior.
A depressão do capitalismo internacional afetou as importações e exigiu maior investimento e mecanismos de proteção a indústria nacional, marcando o novo modelo de Estado, caracterizado por grande intervenção, focado no desenvolvimento industrial e apoiado no discurso nacionalista.
O industrialismo nacionalista trouxe consigo a formação de uma nova classe operária, não apenas mais numerosa, mas caracterizada pela retração na presença de imigrantes e do movimento anarquista, que foi substituído pelo sindicalismo oficial e pelego, com um expressivo setor do operariado levado a apoiar o Estado e suas ações, que envolveram uma política paternalista e assistencialista.
Durante a “República Velha” havia uma clara divisão entre as manifestações artísticas da “elite culta”, em relação às manifestações populares. Na literatura, nas artes plásticas e na música, o espaço e o dinheiro público garantiram a presença de grandes apresentações de gala, de renomados artistas internacionais da ópera e da música erudita. Não podemos considerar a Semana de Arte Moderna em São Paulo como uma exceção, pois ela já era expressão de inovação, que se consolidaria depois de 30.

A Cultura e a Arte
A última década da “República Velha” é considerada como momento de crise, quando percebem-se mudanças significativas nas relações sociais e de poder, a partir do crescimento das cidades e de novos agentes sociais, principalmente o empresariado urbano e os tenentes. Essa mudança também é perceptível na expressão cultural.
Os grandes movimentos culturais “modernos” se desenvolveram nas cidades e fora do “circuito tradicional”, sem a participação do Estado. Em São Paulo se formou uma vanguarda intelectual, rejeitando os estrangeirismos apenas pela moda ou pelas convenções oficiais, que apresentou diversas tendências, porém todas amparadas por maior espírito nacionalista e reflexo de maior urbanização.
No Rio de Janeiro, o movimento modernista apresentou características peculiares, onde artistas e intelectuais reagiram à idéia do modernismo como um movimento organizado, reforçando o vínculo com as rodas boêmias e com as manifestações mais populares, fora dos teatros e espaços convencionais, ocupando as ruas e os bares da Penha e da Lapa, ou com o carnaval de rua nos bairros.
Para muitos havia a necessidade de reconstruir a nação, e isso significava também repensar a cultura, resgatar as tradições, costumes e etnias que haviam permanecido praticamente ignorados pelas elites. A questão da identidade nacional passava para o primeiro plano: que cara tem o Brasil? Intelectuais e artistas buscaram responder essa pergunta, e esse esforço caracterizou o modernismo brasileiro.

A arte popular
O período de governo de Vargas foi caracterizado por uma política trabalhista explícita, que procurou valorizar o trabalhador e o trabalho. Esse foi um período no qual a “música popular” alcançou espaço e reconhecimento. O samba, nossa principal expressão musical, conheceu grande desenvolvimento apoiado na narrativa do cotidiano do trabalho e dos bairros, da vida sacrificada ou “malandra” da população, principalmente do Rio de Janeiro.
Durante a ditadura de Vargas os compositores foram incentivados a valorizar o trabalho e deixar temas como a malandragem e a boemia, devido à censura, como aconteceu com O bonde de São Januário, de Ataulfo Alves e Wilson Batista, que dizia: O bonde de São Januário/ leva mais um otário/sou eu que vou trabalhar. A letra foi “corrigida” com a palavra otário trocada por operário. Foi super valorizado o samba-exaltação, que afirma a grandeza e a beleza do país, como Aquarela do Brasil, de Ary Barroso,
“O trabalho é o maior fator da elevação da dignidade humana” – frase impressa no busto de Vargas, resume o ideal do seu governo.
Ao mesmo tempo encontramos formas culturais opostas, que se expressaram principalmente na Lapa, no Rio de Janeiro. Bairro boêmio, bairro da malandragem, das ladeiras e dos becos onde o samba popular guarda suas melhores lembranças, se contrapondo a cultura que Vargas praticamente oficializara.

O Progresso
Desde Vargas a ordem era o progresso. A cidade, a indústria. O fim da 2ª. Guerra Mundial alterou o equilíbrio econômico e geopolítico em nível mundial, consolidando-se os Estados Unidos como grande potencia, assim como surgia um novo inimigo para substituir o nazismo, o comunismo soviético.
A gradual recuperação da economia capitalista do pós-guerra reduziu as possibilidades de desenvolvimento nacionalista, ao mesmo tempo em que as grandes potências ocidentais se reorganizavam, assim como procuravam definir novas relações internacionais.
No Brasil, um governo com vínculos com os trabalhadores e com os movimento sindical passa a ser objeto de desconfiança, mesmo porque procura preservar características nacionalistas de sua economia que se contrapõem aos novos interesses do imperialismo estadunidense. É necessário readequar a política trabalhista e a idéia de nacionalismo. Ambos perderam espaço na cultura nacional, substituídos por novos valores de forma relativamente rápida, devido ao temor aos “novos inimigos”. Trabalhador e sindicato se tornaram sinônimos de comunismo, assim com o nacionalismo na economia deveria ser alcançado em aliança com os Estados Unidos. O nacionalismo com as multinacionais.

O Partido e o governo
O Progresso do Brasil. 50 anos em 5. Era necessário provar que o Brasil progrediria, afinal esse foi o grande mote da campanha do PSD de Juscelino Kubitschek, procurando preservar algumas das características marcantes da política de Vargas. 
Afinal, JK foi populista ou não? Foi herdeiro político de Vargas?
Apesar da manutenção da velha aliança entre o PSD e o PTB, a base social das duas agremiações era muito diferente, assim como o contexto nacional e internacional eram também diferentes.
O PSD de Juscelino representava principalmente um grupo de políticos tradicionais que se formara durante os momentos em que Vargas governou o país, mas que se apegou às estruturas políticas e aos cargos de mando, sem uma definição ideológica, nem mesmo no que toca a manipulação das massas através do sindicalismo pelego. Além disso, não só esses “políticos profissionais”, como um grupo cada vez maior de funcionários das máquinas estatais procurava se garantir em seus postos, com um padrão de vida mais elevado em comparação aos períodos anteriores. Dessa maneira formava-se uma nova parcela daquilo que viríamos a chamar de “classe média”, acrescida de novos grupos nas grandes cidades, principalmente nas capitais de estados e sobretudo no sudeste, fruto da política econômica de industrialização, eixo do Plano de Metas de JK.
Em nenhum momento se ouviu dizer que o Brasil progrediu graças à política do PSD, ao contrário, sempre houve uma clara desvalorização das estruturas partidárias, principalmente porque nossa história é marcada por períodos ditatoriais nos quais os partidos são inexistentes ou não têm liberdade de expressão, ou porque muitos partidos se tornaram apenas trampolins para aspirações individuais.
JK é visto como o homem que modernizou o Brasil. O governante que promoveu o progresso.

O desenvolvimentismo
Identificar a idéia de desenvolvimentismo no governo JK não é difícil. A visão predominante de desenvolvimento significa na prática o aumento da produção industrial, a urbanização e "as grandes obras".
Nesse período a taxa de crescimento real da economia foi de 7% ao ano, a produção industrial cresceu 100%, eram efeitos do Plano de Metas, que priorizou a substituição de importações nos setores de bens de capitais e bens de consumo duráveis.
O Estado continuou a financiar grande parte das indústrias de base através de novas emissões de moedas ou de empréstimos externos. Já o setor de bens de consumo desenvolveu-se a partir da internacionalização da economia e para isso utilizou-se a instrução 113 da SUMOC (Superintendência da Moeda e do Crédito) que garantia a importação de máquinas e equipamentos no exterior, sem impostos, desde que os empresários estrangeiros tivessem sócio nacional.
Desta maneira realizou-se a abertura do mercado nacional para as grandes empresas estrangeiras, que passaram a investir no Brasil, numa época onde havia disponibilidade de capitais devido à retração da indústria de guerra.
Além do crescimento da produção interna, cresceu também a dependência tecnológica, pois as empresas aqui instaladas continuavam a importar máquinas e aumentou a dependência financeira, fruto do maior endividamento e das remessas de lucros realizadas pelas multinacionais.

A cidade
O crescimento urbano foi acompanhado pelo crescimento de uma "classe média", em grande parte vinculada ao setor de serviços, ampliando-se também o consumo. Essa situação foi responsável pela idéia de que aquele momento representava os “anos dourados” da economia brasileira, pois o país vivia em estado de euforia. A consolidação da sociedade de massa alterou o perfil de consumo e de comportamento de parcelas da sociedade urbana, enfim a classe-média teve acesso a bens como geladeira, liquidificador, televisão e automóvel. O Brasil era o país do futuro.
Esse “novo Brasil” conheceu uma verdadeira revolução no comportamento da juventude. O rock and roll invadia as rádios, novas maneiras de se vestir e de comportamento ditavam padrões de contestação comportamental, apesar de conviver com os padrões tradicionais de moralidade. Lambreta, calça jeans, óculos escuros eram adereços da nova moda da classe média.
As conquistas esportivas também foram importantes para o clima de otimismo durante a chamada Era JK, destacando-se a vitória da Seleção Brasileira de Futebol, que em 1958 conquistou sua primeira Copa do Mundo.

A classe média e a música
A Bossa Nova. Reflexo dessa idéia de progresso e modernidade do período de governo de JK, a parte cultural mais nobre dos “anos dourados”, não se contrapôs frontalmente a chamada “cultura popular”, mas criou um marco delimitador entre a cultura do morro, do trabalhador, popular e a cultura mais elitizada da classe média, que tem como uma de suas características fundamentais a necessidade de se diferenciar, de se perceber como um setor social que “progrediu” e se diferenciou “do povo”, visto como inferior.

A época da bola
Ao mesmo tempo em que a Bossa Nova encantava uma geração nas cidades, a bola encantava a maioria dos brasileiros. Em 1958 a Copa do Mundo se realizou na Suécia, outro país que não havia participado diretamente da Segunda Guerra Mundial. Apesar do derrota do nazismo, o mundo ainda vivia cercado por diversos conflitos e o Brasil ainda sentia os efeitos do suicídio de Vargas quatro anos antes.
Em Cuba, os guerrilheiros liderados por Fidel Castro e Che avançam contra a ditadura de Fulgêncio Batista, enquanto que na Colômbia uma guerra civil de dez anos entre liberais e conservadores é capitalizada pela reação democrática, abrindo caminho para o surgimento do movimento guerrilheiro de esquerda que daria origem às FARC’s.

A bola
O Futebol teve papel fundamental na construção da identidade nacional. Se é verdade que o Estado e a política de massas do populismo se preocuparam em exercer o controle sobre a sociedade, também é verdade que a valorização do “nacional” antecede esse período. O futebol teve papel fundamental na construção da identidade nacional brasileira, na medida em que foi se transformando numa "paixão nacional" e junto com o carnaval e o samba, é considerado um dos patrimônios culturais brasileiros.
O futebol é importante não só como forma de lazer de muitos milhões de brasileiros, mas também como fonte estimuladora do sentimento de patriotismo, de fidelidade desinteressada e por ser um elemento que o distingue dos demais países, tornando-se um dos principais motivos de orgulho do brasileiro.
Foi nesse período que o negro ganhou destaque a passou a ter seu espaço no esporte bretão – ou seja, inglês – até então aristocrático e branco. Não que os jogadores negros não existissem, mas eram alvo de grande discriminação, na medida em que o futebol até a época de Vargas era muito elitizado. No período populista esse esporte se popularizou, em parte como política do Estado, em parte como reflexo da formação de uma identidade nacional que é anterior a 1930 e está vinculada ao discurso de grupos sociais distintos, como o nacionalismo dos modernistas.

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