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Quem é Ariel Sharon? Seu passado e a perspectiva para paz no Oriente Médio com a vitória da direita em Israel

INTRODUÇÃO

O líder de extrema direita, Ariel Sharon foi eleito primeiro-ministro de Israel na primeira eleição exclusiva para premiê, ocorrida no país em 6 de fevereiro de 2001. Prometendo segurança e a retomada do processo de paz com os palestinos só depois do fim da Intifada, (revolta popular palestina contra a ocupação israelense) o general de reserva, ex-chanceler e ex-ministro da Defesa, obteve uma esmagadora vitória (cerca de 63% dos votos apurados), sobre a fragilizada candidatura de centro-esquerda do trabalhista e ex-premiê Ehud Barak. Essa nova Intifada teve início em 28 de setembro de 2000, justamente após uma visita provocativa de Sharon à Esplanada das Mesquitas, local mais sagrado de Jerusalém para palestinos e judeus (que o chamam de Monte do Templo). A ira dos palestinos contra a presença de Sharon (chamado de "açougueiro" em razão da sua participação em vários massacres vitimando árabes civis e indefesos), foi tratada com violentíssima repressão pelas forças israelenses, deixando pelo menos quatro palestinos mortos e dando início ao levante popular. Na ocasião a comunidade internacional representada pela ONU, condenou de forma veemente os abusos da repressão de Israel, apesar do veto norte-americano sempre fiel ao Estado judeu.



Em meio à revolta, a campanha eleitoral não conseguiu entusiasmar nem os israelenses, com os dois candidatos apresentando altíssimo índice de rejeição, onde apenas 62% dos 4,5 milhões de eleitores compareceram na maior abstenção da história do país. A abstenção foi ainda maior entre os árabes israelenses (palestinos que continuaram a viver nas terras que formaram o Estado de Israel em 1948, destacando-se tradicionalmente como eleitores da esquerda), em claro sinal de descontentamento após a política de Barak continuar matando palestinos e colonizando ilegalmente suas terras.


BARAK, SHARON E A PAZ SEM CONCESSÕES

Barak deixa o governo com menos de dois anos no comando do país, tendo como principal destaque, a retirada de Israel do sul do Líbano, após duas décadas de ocupação.



Sua proposta de fechar um rápido acordo de paz com os palestinos não foi realizada, pois se por um lado Barak acenava com um acordo que concederia certa soberania palestina em alguns pontos de Jerusalém, por outro lado permaneceu com uma política expansionista através da construção de casas ilegais de colonos judeus em terras palestinas ocupadas.
A tese israelense de que "Barak ofereceu o máximo que podia, e os palestinos não aceitaram, e agora Sharon oferecerá muito menos", é rechaçada por Ghassam Qhatib -- um dos mais respeitados analistas políticos palestinos -- que em entrevista à Folha de São Paulo publicada em 7 de fevereiro de 2001, afirma que "...a questão não é quanto um premiê israelense pode oferecer, mas se ele aceita os limites da legitimidade internacional. Há décadas, resoluções do Conselho de Segurança da ONU determinam o fim da ocupação israelense, e esse é o parâmetro do ponto de vista palestino. É irrelevante para nós se um líder israelense foi longe demais ou não."
Durante a campanha eleitoral, Ariel Sharon adotou o slogan "Sharon trará shalon (paz em hebraico)", numa rima considerada cínica por muitos israelenses e pelos palestinos, já que em suas propostas o novo premiê direitista não pretende conceder mais territórios da Cisjordânia aos palestinos, que com os "avanços" do governo Barak, contam com apenas 42% das terras da região, entre controle parcial e total.
A intransigência de Sharon, ficou ainda mais clara com sua posição de não negociar com o presidente palestino Yasser Arafat enquanto a Intifada estiver ocorrendo, como que se Arafat pudesse ter controle total sobre o levante popular.
A permanência dos assentamentos de colônias judaicas ilegais em território palestino sob soberania de Israel impede a criação de um Estado palestino com continuidade territorial, representando um dos três principais entraves para qualquer avanço em direção a uma paz duradoura na região. Outros pontos delicados são a não aceitação na mudança do status de Jerusalém (cuja parte árabe reivindicada como futura capital palestina foi anexada por Israel), e a condição dos quase 4 milhões de refugiados, que tem seu retorno negado por Israel. Essas pendências, foram também os principais desafios da gestão Barak sendo responsáveis pelo congelamento nas conversações de paz em que o ex-premiê apostou sua candidatura.


DE OSLO A CAMP DAVID: FRACASSO NAS NEGOCIAÇÕES

O processo de paz entre palestinos e israelenses nasceu efetivamente no governo de Shimon Peres em meados dos anos 1980, através de encontros com Yasser Arafat. Porém num passado mais recente, as atuais conversações de paz, congeladas com a radicalização da repressão de Israel sobre a Intifada, iniciaram-se em 1993, em Oslo (Noruega), sendo arquitetadas do lado judeu pelos líderes trabalhistas Shimon Peres e Yitzhak Rabin (primeiro-ministro de Israel na época, que acabou assassinado por um judeu de extrema-direita) e por Yasser Arafat do lado palestino. Os três, inclusive logo depois, seriam agraciados com o Nobel da paz.
Em julho de 2000, ocorreu a cúpula de Camp David nos Estados Unidos, chamada também de Camp David 2, já que no mesmo local em 1978 Israel assinou o um acordo de paz com o Egito, que conseguiu ter de volta suas terras no Sinai ocupadas por Israel desde a Guerra do Yon Kippur. Nesse Camp David 2, Israel ofereceu pela primeira vez soberania aos palestinos em certas áreas de Jerusalém Oriental, representando um avanço muito pequeno para Yasser Arafat, para quem os palestinos (muçulmanos e cristãos), não poderiam abrir mão da soberania plena nos locais sagrados de Jerusalém.
No final de 2000 o ex-presidente norte-americano Bill Clinton apresentou propostas para um acordo. Apesar de judeus e palestinos não conseguirem chegar a um consenso e da continuidade da onda de violência, ambos nunca estiveram tão perto de um acordo mais consistente.




QUEM É ARIEL SHARON ?

Ariel Sharon nasceu em 1928 em Kfar Mahal, uma aldeia ao norte de Tel Aviv, quando a Palestina ainda era parte do domínio britânico no Oriente Médio.
Oriundo de uma família de fervorosos sionistas russos que imigraram para Palestina no início do século XX, Sharon é hoje proprietário de uma das maiores fazendas de Israel e junto com o ex-premiê trabalhista Shimon Peres, é o último remanescente de políticos que surgiram com a criação do Estado de Israel em 1948.
Em 1945 passou a integrar o Haganah, organização clandestina que precedeu o exército israelense, caracterizada inicialmente como um grupo de judeus sionistas em resistência aos britânicos e aos árabes.
Em 1953, tornou-se líder da Unidade 101 criada para combater os árabes e comandou uma operação assassina contra a aldeia de Kibya na Cisjordânia, explodindo 45 casas e matando 69 moradores. As ações terroristas dessa unidade incluíram tantas mortes de civis palestinos que foi necessário emitir uma ordem proibindo matar mulheres e crianças.
Em 1956 Sharon foi acusado por seus superiores de insubordinação e desonestidade na campanha do canal de Suez durante a guerra do Sinai no Egito. Segundo o historiador militar israelense Martim Van Cheveld, da Universidade Hebraica de Jerusalém, os soldados de Sharon avançaram "da forma mais incompetente possível, resultando em uma batalha totalmente desnecessária, que se tornou a mais sangrenta da guerra". Na ocasião seus próprios comandados o acusaram de oportunismo desumano, no sentido de tentar construir sua reputação à custa deles.
Em 1967 comandou a divisão de blindados na Guerra dos Seis Dias e em 1973 liderou a captura do Terceiro Exército do Egito, pondo fim à Guerra do Yom Kippur. No início dos anos 1970 como comandante militar no sul de Israel, Sharon reprimiu os palestinos na faixa de Gaza, através de deportações em massa de famílias inteiras, chegando a abrir uma larga avenida no meio de um campo de refugiados, destruindo centenas de casas.
Na esfera político-partidária a trajetória de Sharon é mais recente, iniciando-se concretamente em 1973 quando o atual premiê foi um dos principais articuladores das forças de direita que originaram o partido Likud. Apesar de suas origens direitistas, Sharon tornou-se conselheiro especial de segurança do primeiro-ministro Ytzhak Rabin (Partido Trabalhista) em 1974.
Entre 1977 e 1981 foi Ministro da agricultura no primeiro governo do Likud e organizou o primeiro grande movimento de colonização judaica nos territórios ocupados. Sharon e o sionismo em geral, sempre viram a colonização de terras palestinas por assentamentos judeus, como a melhor forma de dificultar e impedir a formação de um Estado palestino com continuidade territorial.
Apesar de inicialmente ter se posicionado contra o acordo de paz (Camp David 1) entre Israel e Egito em 1978, Sharon acabou comandando a retirada dos colonos judeus do Sinai ocupado por Israel desde a Guerra do Yon Kippur.
A trajetória de Ariel Sharon iria ainda ficar mais manchada, quando da invasão do Líbano em 1982. Sob seu próprio comando, como então ministro da Defesa de Menachem Begin (Likud), prometeu ocupar 40 km do país numa guerra que duraria no máximo 48 horas. A ocupação estendeu-se até Beirute sendo que Sharon foi considerado culpado pelo massacre de mais de 2 mil civis palestinos indefesos, nos campos de refugiados de Sabra e Chatila localizados numa região de Beirute controlada por Israel e pelas milícias cristãs libanesas, que em mais de 20 anos agiu com procuração de Israel em ações assassinas coordenadas pelo exército judeu. O massacre de Sabra e Chatila provocou uma verdadeira comoção mundial, quando a comunidade internacional responsabilizou o governo de Israel pelos massacres. Manifestações de repúdio ao governo israelense ocorreram nas principais cidades do mundo, sendo que os próprios israelenses chocados com a atrocidade saíram às ruas pedindo a queda do governo e uma investigação. Foi instalado um inquérito em Israel, que concluiu que Sharon tinha responsabilidade no massacre e sugeriu que ele deixasse o cargo de ministro da Defesa.
Nessa época, tudo parecia indicar que as ambições políticas de Sharon haviam se esgotado, quando um de seus conselheiros disse num tom profético: "Aqueles que não querem aceita-lo como ministro da Defesa terão de aceita-lo como primeiro-ministro".
Sharon foi ainda ministro do Comércio e da Indústria entre 1984 e 1990 e supervisionou a gigantesca expansão de colônias judaicas no Ministério da Construção entre 1991 e 1992, tornando-se finalmente líder do Likud em 1999 e primeiro ministro nessas eleições de fevereiro de 2001.


HAVERÁ PAZ COM SHARON ?

A aparente contradição entre a vitória eleitoral do extremista de direita Ariel Sharon e o fato de mais de 60% dos israelenses apoiarem o processo de paz, só faz sentido na medida em que considerarmos dois fatores: o elevadíssimo índice de abstenção nessa eleição e a posição da maioria que elegeu Sharon, no sentido de estar contando com o recrudescimento do novo governante nas negociações com os palestinos, que recusaram as propostas, bastante flexíveis do ponto de vista israelense, do premiê Ehud Barak.
As propostas de "paz" de Sharon já recusadas pelos palestinos, como o fim das concessões de terras, a permanência de Jerusalém sobre controle exclusivo de Israel e a preservação de todos os assentamentos, são mínimas mas Sharon pode muda-las agora que assumiu o poder. Na história mais recente de Israel, outros governantes já fizeram mudanças significativas na relação entre propostas pré-eleitorais e prática como chefes de governo. O próprio Menachem Begin, também do Likud, foi eleito em 1977 com a promessa de não se retirar do Sinai ocupado, e acabou devolvendo toda península ao Egito e destruindo todas as colônias judaicas, em troca de um acordo de paz com o país árabe.



Ariel Sharon tem consciência que não terá apoio do Parlamento e da população para atitudes radicais que impeçam a continuidade do processo de paz. Se o mundo árabe, principalmente os palestinos, tem razões para estarem céticos com a vitória de Sharon, a ANP (Autoridade Nacional Palestina), afirmou estar preparada para negociar com Sharon caso ele respeite os avanços de seus predecessores. "Respeitarei o resultado da eleição israelense e espero que o processo de paz continue", disse Yasser Arafat após a confirmação da vitória de Sharon. Espera-se que o agora primeiro-ministro Sharon aproveite a mão estendida de Arafat como oportunidade, até de para limpar um pouco o seu nome tão relacionado a ações terroristas contra os árabes, podendo a figura do militar assassino e do político reacionário e racista dar lugar num futuro breve, ao estadista que contribuiu para o avanço da paz na região.

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