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Intolerância do Taleban destrói patrimônio histórico

"É um absurdo tão grande que custamos a crer. É um caso grave de extremismo. A religião cegou a inteligência desses dirigentes."
Mounir Bouchenaki (vice-diretor cultural da Unesco)


INTRODUÇÃO

No dia primeiro de março de 2001 o grupo extremista islâmico Taleban, que controla 90% do Afeganistão, iniciou a destruição de centenas de estátuas com valor cultural inestimável, por considera-las ofensivas a um preceito muçulmano contrário a adoração de imagens. Um dos principais centros da campanha lançada pelo governo do Taleban para destruição das imagens, é a cidade de Bamiyan, que abriga duas estátuas gigantes de Buda datadas do século V e classificadas pela ONU como patrimônio da humanidade. Uma delas, com 53 metros, é considerada a maior imagem de Buda em pé do mundo. Segundo o ministro da Informação e Cultura do Taleban, Qudratullah Jamal, a destruição também atingirá o museu de Cabul, que abriga mais de 6 mil estátuas.


A foto retirada da enciclopédia Larousse Cultural


Apesar dos vários apelos internacionais, inclusive de países muçulmanos, a intolerância com pretextos religiosos não poupou as estátuas. Após doze dias de tentativas frustradas de negociação, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para Educação Ciência e Cultura) confirmou a destruição de várias relíquias, incluindo as estátuas gigantes do Buda. Nesse período, a Unesco chegou a enviar um telegrama para o líder do Taleban, Mohammad Omar, pedindo para que ele reconsiderasse a decisão, enquanto que embaixadores de vários países islâmicos, que também são contra a atitude, apelaram inutilmente.
"É um absurdo tão grande que custamos a crer. É um caso grave de extremismo. A religião cegou a inteligência desses dirigentes", disse revoltado o vice-diretor cultural da Unesco, Mounir Bouchenaki, frente a esse verdadeiro crime que o governo afegão do Taleban está cometendo contra o patrimônio histórico-cultural da humanidade.


Foto: Associated Press


O Taleban tomou o poder no Afeganistão em setembro de 1996 visando a criação de um Estado islâmico puro. Distorcendo os princípios do islamismo, o movimento proibiu as mulheres de trabalhar, estudar e sair às ruas sem um véu cobrindo o rosto e o corpo, enquanto que os homens por sua vez, foram obrigados a deixar a barba crescer.

UM POUCO DA HISTÓRIA MAIS REMOTA

No passado mais distante o Afeganistão foi uma região das mais importantes para o aprendizado budista, até sua islamização no século VIII. Sendo passagem para a antiga Rota da Seda, o país foi influenciado pela arte oriental e ocidental, possuindo obras que mesclam influências da Grécia e da Pérsia e de religiões como o hinduísmo, o budismo e o islamismo.
Conhecido há mais de 2.500 anos, o Afeganistão é mencionado pela primeira vez na história no texto sagrado dos persas, durante o período pré-aquemênida. Em 500 a. C. tornou-se província do Império Persa, para depois de dois séculos ser conquistado pelo por Alexandre, o Grande.
Entre os oito primeiros séculos da era cristã, a região foi anexada ao império indiano e dominada por povos originários da China. A invasão dos unos no século V, resultou em sangrentas lutas contra os sassânidas, que governaram a região até a conquista árabe em 651. A islamização foi lenta, até a total tomada de Cabul após um período de três séculos de lutas.
No século XIII, os mongóis de Gengis Khan devastaram o país destruindo várias cidades como Balkh, Bamyan, Rhazni e Harat. Entre os séculos XVI e XVII o Afeganistão foi partilhado por indianos e iranianos.


Foto extraída da Enciclopédia Larousse Cultural


Somente no século XVIII o país voltou a ser governado por clãs locais, que jogaram a região numa luta fratricida e, apesar de resistirem ao domínio britânico, foram obrigados a aceitar as fronteiras demarcadas por uma comissão anglo-russa em 1893. A independência foi proclamada por Aman Allak Khan e reconhecida por britânicos e soviéticos em 1921.

SÉCULO XX: INVASÃO, GOLPES E O TALEBAN

O Taleban (estudantes na língua pashtu), tem suas origens em 1978, ano do golpe de Estado que levou ao poder o PDPA (Partido Democrático e Popular do Afeganistão), grupo de orientação comunista manipulado pela União Soviética. Desde então o país, foi dirigido por representantes de facções rivais, o que levou a um outro golpe de Estado em dezembro de 1979, quando Babrak Karmal tomou o poder amparado pela invasão de tropas soviéticas. A resistência local foi dirigida pela guerrilha muçulmana dos mudjahiddin (combatentes), provocando um grande fluxo de refugiados para o exterior.
Politicamente, os líderes do Taleban saíram de partidos tradicionalistas das regiões de etnia pashtu no sul do país. Formado exclusivamente por religiosos, o Taleban segue os princípios de uma escola corânica de pensamento denominada deobanditas, fundada na Índia no final do século XIX, que defende a leitura estrita do Corão sem alterações motivadas pelo tempo. Instaladas principalmente em território paquistanês, essas escolas se multiplicaram durante a ocupação soviética no Afeganistão. Nos dez anos de ocupação, 5 milhões de afegãos abandonaram o país, sendo que mais de 3 milhões se instalaram no Paquistão.
A retirada da União Soviética em 1989, explicitou as divergências étnicas e políticas dos mudjahidin, fortalecendo os grupos formados por fundamentalistas sunitas, com posições radicalmente antiocidentais. Enfraquecido, o presidente Ndjibollah Mohammad, que havia sucedido Babrak Karmal, renunciou em abril de 1992, quando os mudjahiddin tomaram o poder e proclamaram um Estado islâmico no Afeganistão. Os fundamentalistas mais radicais por sua vez, não aceitaram o novo governo, iniciando uma série de pesados ataques sobre a capital, Cabul.
Em março de 1993, o país parecia ter encontrado a pacificação através da assinatura de um acordo articulado pela Arábia Saudita, Irã e Paquistão. Porém, o não cumprimento do acordo, reativou os combates internos que se agravaram com o surgimento da milícia estudantil de muçulmanos fundamentalistas do Taleban, defensora de um Estado islâmico puro.
Em setembro de 1996 o Afeganistão estava mergulhado em uma outra guerra civil, que dilacerou o país quando o Taleban tomou o poder. A ascensão do Taleban foi fulminante e em quatro anos seus militantes já tinham conquistado quase todo o país, inclusive a capital Cabul. Durante esse período as mais diversas correntes políticas seguiram a cartilha do Taleban. De monarquistas a antigos membros do Partido Comunista, além do próprio povo afegão, que acolhia os jovens combatentes como libertadores. O apoio veio também do mundo ocidental europeu e dos Estados Unidos, que deu sinal verde ao Paquistão, seu aliado, para ajudar instalar o Taleban em Cabul.
Hoje, a maior parte do Afeganistão é dominada pelo Taleban, cujo governo não é reconhecido pela ONU. Além do mais, o Taleban dá hospitalidade ao milionário saudita Osama bin Laden, considerado um dos maiores inimigos dos Estados Unidos e acusado de estar envolvido em atos de terrorismo contra aa embaixadas norte-americanas no Quênia e na Tanzânia. Quando o Taleban negou-se a entregar Osama aos Estados Unidos, a ONU reagiu, impondo pesadas sanções ao Afeganistão que, como sempre acabam recaindo sobre a população mais pobre do país. Atingidos pela guerra civil e sem um governo de unanimidade nacional, já que o Taleban não controla a totalidade do país, o povo afegão ainda sofre com a seca, que está devastando grande parte da lavoura e do rebanho. Segundo agências de ajuda humanitária, cerca de 750 mil pessoas (5% da população) já deixaram suas casas sem destino certo, cruzando as fronteiras do Irã e do Paquistão, enquanto que outro um milhão de pessoas corre o risco de morrer de fome ou de doenças nos próximos meses.

OUTRAS DESTRUIÇÕES NA HISTÓRIA

Na verdade, a destruição de imagens budistas no Afeganistão, é apenas mais um capítulo da insanidade que toma conta do fanatismo religioso ou ideológico, que em nome de Deus ou do povo, são capazes de cometer os mais hediondos crimes contra a cultura e contra a história.
Desde a época de Cristo, a humanidade já convivia com esse tipo de barbárie. Foi assim que no ano 70 os romanos destruíram o Segundo Templo em Jerusalém, um dos locais mais sagrados para os judeus, onde se encontra hoje o Muro das Lamentações. No Oriente Próximo sob domínio bizantino, os iconoclastas procuraram destruir todas as imagens religiosas, argumentando que a idolatria era contrária aos princípios do verdadeiro cristianismo.
Ao longo da Idade Média os crimes prosseguiram, destacando-se uma série de ataques cristãos contra obras muçulmanas durante a Guerra de Reconquista e a demolição de todas as esfinges astecas no Novo Mundo pelos colonizadores espanhóis.
Na modernidade, obras dos dois maiores escultores do Mediterrâneo helênico, os gregos Fídias e Miron, foram espedaçadas por saqueadores otomanos, que assim tinham melhores condições de transporte para o contrabando. Hoje existe um verdadeiro acervo de partes dessas relíquias em museus da França e da Inglaterra.
Na primeira década do século XIX o império francês de Napoleão Bonaparte também destruiu e saqueou obras de povos conquistados. Já o século XX marcado pela guerra fria também mostrou sua face de barbárie, quando na Rússia bolchevique igrejas foram destruídas, quase ao mesmo tempo em que os nazistas queimavam livros e sinagogas na Alemanha. A Mongólia comunista destruiu cerca de 600 monastérios budistas, o mesmo acontecendo na China dos anos 60 durante a Revolução Cultural.
Mais recentemente, a península balcânica também foi palco de destruição, quando nos anos 90 o ódio racial dos sérvios iniciou uma verdadeira faxina étnica, não poupando nem as mesquitas na região muçulmana do Kosovo.
A própria Índia, hoje revoltada com a destruição das obras budistas no Afeganistão, também foi palco do fanatismo religioso, quando em 1991, nacionalistas hindus atacaram a mesquita de Babri, sob o argumento de que a mesma teria sido construída sobre as ruínas de um templo destruído por invasores muçulmanos no mítico local do nascimento do deus Rama. Como se vê, o ato demente do Taleban encontra eco no passado histórico das mais diferentes civilizações.


Foto: France Presse


O argumento de que as obras de arte destruídas no Afeganistão representavam uma tentativa de idolatria, prática condenada no islamismo, não procede. Primeiro, não existem budistas no país para representar idolatria aos monumentos. Segundo, o profeta Muhammad, fundador do islamismo, destruiu os ídolos de Meca, exceto a pedra negra há 1.400 anos durante o nascimento da religião, no sentido de consolidar uma visão religiosa de caráter monoteísta entre os árabes. Terceiro, o islamismo é uma religião de paz e tolerância como pode se comprovar ao longo da história, como a Espanha na Idade Média, que após sete séculos de domínio muçulmano permaneceu católica e falando uma língua latina. Destaca-se ainda a preservação do rico legado faraônico no Egito e de ruínas pré-islâmicas na Turquia, Irã, Síria e Iraque entre outros.
Nesse sentido, a crítica do ocidente ao Taleban não pode assumir uma postura etnocêntrica, que venha alimentar ainda mais o preconceito ocidental frente ao islamismo. Deve sim mostrar, que a violência do Taleban nada tem a ver com a doutrina pregada por Maomé, assim como os crimes cometidos pela Igreja Católica durante séculos de inquisição, também nada tinham a ver com os princípios pregados por Jesus Cristo.

Saiba mais sobre o islamismo e o Taleban com o texto O CRESCIMENTO DO ISLÃ E O TALEBAN

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