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Um ano da Nova Intifada

UM ANO DA NOVA INTIFADA

"Os Estados Unidos são odiados no Oriente Médio, por causa de seu apoio acrítico que soma mais de US$3 bilhões a US$4 bilhões por ano, sustentando incondicionalmente a ocupação israelense nos territórios palestinos, incluindo o fornecimento de helicópteros, caças F16 e mísseis usados para reforçar a ocupação."
Phyllis Bennis, do Institute for Policy Studies, Washington

Nesse dia 29 de setembro de 2001, a nova intifada (revolta popular palestina contra a ocupação israelense, iniciada em 1967), está completando um ano, em meio a várias manifestações de protesto contra Israel nos países islâmicos e nos territórios palestinos ocupados, onde seis palestinos morreram e dezenas ficaram feridos em choques com soldados israelenses.
Nesses doze meses, ao menos 597 palestinos e 170 israelenses já morreram. Quantos mais terão que perder a vida até que Israel se retire dos territórios árabes ocupados desde a Guerra dos Seis Dias em 1967?




No dia 11 de setembro de 2001, ao mesmo tempo em que se buscavam sobreviventes em Nova York, Israel invadia Jericó, primeira cidade palestina a conseguir autonomia na Cisjordânia (em 1994), deixando um saldo de 13 mortos e mais de cem feridos. Em apenas dois dias após o atentado nos Estados Unidos, 20 palestinos já tinham sido mortos nos territórios ocupados por Israel, fato que estaria em destaque na imprensa, se não fosse o ataque na América do Norte. Não se trata aqui de simplesmente comparar, pois as cenas nos Estados Unidos foram estarrecedoras pela dimensão, forma e local em que foram executadas. Mas, desvincular os atentados nos EUA da política externa norte-americana para questão palestina, seria o mesmo que tentar entender o agravamento da fome no hemisfério sul sem levar em conta a crescente concentração de riqueza das nações do primeiro mundo, numa economia que se diz "globalizada".
Passadas três semanas, o ataque terrorista nos Estados Unidos está sendo interpretado como uma resposta de grupos antiamericanos, em razão da política externa dos Estados Unidos no Oriente Médio de sustentar a ocupação da Palestina por Israel. A mesma política que em setembro de 1982 permitiu que ocorresse o maior ato de terrorismo da história moderna no Oriente Médio, quando uma milícia de cristãos, que representava o Estado judeu na ocupação do Líbano, praticou uma verdadeira chacina nos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila, matando quase duas mil pessoas em menos de três dias. Quem abriu o campo aos milicianos foi o criminoso de guerra Ariel Sharon, hoje primeiro-ministro de Israel, sob ordens do primeiro-ministro da época, o ex-terrorista Menachen Begin.
A ocupação do Líbano por Israel, que se retirou do país somente em maio de 2000, após 22 anos, causou a morte de cerca de 20 mil libaneses e palestinos, quase todos civis. Provavelmente duas ou três vezes o número de vítimas do impressionante atentado nos EUA. Novamente, não se trata aqui apenas de comparar o número de vítimas, mas de mostrar que elas existem em ambos os casos e lados, e são civis na grande maioria.

A OCUPAÇÃO DA PALESTINA
A ocupação judaica da Palestina começou a ganhar força no final do século XIX, quando o mundo afro-asiático estava sendo partilhado pelas potências imperialistas. Nesse período, parte do mundo árabe-islâmico ainda estava sob domínio do Império turco-otomano, que se estendeu até 1918, quando a Turquia foi derrotada na Primeira Guerra Mundial e a Palestina tornou-se um território sob mandato britânico. Cerca de 20 anos antes, iniciava-se na Europa o movimento sionista, articulado por lideranças da comunidade judaica internacional, com objetivo de construir um lar nacional judeu na Palestina. Tal movimento iniciou-se quando o escritor austríaco de origem judaica Theodor Herzl publicou o livro "O Estado Judeu", fato esse que provocou o primeiro congresso sionista mundial em 1897. No contexto do pós-Segunda Guerra Mundial, a recém criada ONU decidiu pela partilha da Palestina, hegemonicamente árabe, resultando na proclamação do Estado de Israel em 1948.

O constante e incondicional apoio dos Estados Unidos ao expansionismo de Israel na Palestina e em parte do mundo árabe vem provocando um crescente sentimento antiamericano em todo Oriente Médio, com o forte agravante do fundamentalismo islâmico, que encontra-se num processo de crescimento constante, principalmente após a revolução islâmica no Irã em 1979.




A relação mais odiosa do mundo árabe-islâmico com os Estados Unidos porém, é mais recente, originando-se bem menos na criação do Estado de Israel, e bem mais na Guerra dos Seis Dias em 1967, quando Israel ocupou os territórios palestinos da Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental (a região mais delicada sob o aspecto histórico-religioso tanto para muçulmanos, como para judeus e cristãos), além das colinas de Golã da Síria e da península do Sinai do Egito, já devolvida em 1979. O povo palestino, discriminado dentro de Israel e arruinado nos territórios ocupados, teve sua situação agravada nas décadas de 1970 e 1980, quando o expansionismo israelense apoiado pelos Estados Unidos, estendeu-se para o Líbano, visando expulsar a OLP do território libanês. Foi nesse quadro que se radicalizou a luta palestina contra Israel, com o surgimento e crescimento de grupos político-religiosos hostis ao ocidente, destacando-se o Hezbollah ("Partido de Deus"), organização xiita libanesa apoiada pelo governo islâmico fundamentalista do Irã, o Hamas (Movimento de Resistência Islâmica) criado por palestinos em 1987 quando se iniciou a primeira intifada (levante popular palestino contra a ocupação israelense), a Jihad islâmico formada por jovens palestinos no Egito desde 1980, além do Al qaeda ("A Base"), organização muçulmana radical com sede principal no Afeganistão, liderada pelo milionário saudita Osama bin Laden, o principal acusado do ataque terrorista aos Estados Unidos e que, no passado mais recente também foi parceiro dos Estados Unidos no combate às tropas da União Soviética nos anos 1980.

O VETO DOS EUA PARA A QUESTÃO PALESTINA
Nesses mais de 50 anos de luta de libertação do povo palestino contra a ocupação israelense, qual tem sido a posição dos Estado Unidos?
"A cada nova guerra os Estados Unidos tornavam-se mais atrelados a Israel", diz o historiador israelense Avi Schlain.
Segundo o Jihad Islâmico, "os ataques são resultados diretos da política norte-americana".
Na esfera diplomática os Estados Unidos permanecem contrários ao consenso internacional de necessidade de um acordo político para o problema israelo-palestino. Esse consenso foi expresso em janeiro de 1976 por uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, vetada pelos Estados Unidos. Essa resolução incorporava o texto de uma outra resolução da ONU (a resolução 242 de 1967), pela qual as legítimas fronteiras da região seriam as anteriores à Guerra dos Seis Dias, modificando-a, apenas para definir um Estado palestino numa área de apenas 22% da Palestina árabe (anterior à partilha da região que criou Israel). Essa resolução foi abertamente aceita e apoiada pela Organização para a Libertação da Palestina (OLP), pela Europa e pela ex-União Soviética e de uma forma direta ou indireta, por todos os países do mundo, exceto Israel e Estados Unidos, o fiel escudeiro do Estado judeu no Conselho de Segurança da ONU, que nos anos subseqüentes continuaram impedindo os esforços para um acordo diplomático realizado pela própria ONU, Europa, países árabes, OLP e outros.
Segundo Shlomo Bem-Ami, ex-ministro do exterior de Israel e um dos mais importantes defensores da paz, após a guerra do Golfo, os Estados Unidos conseguiram impor seu programa unilateral, representado pelo "processo de paz", que desde Oslo, tem como meta o estabelecimento de uma "dependência neocolonial permanente" da população palestina na Cisjordânia e na faixa de Gaza. A "generosa" proposta norte-americana para questão palestina, envolve manter a faixa de Gaza separada da Cisjordânia e esta, dividida em três cantões separados uns dos outros, com a cidade de Jerusalém, que segundo o escritor norte-americano de origem judaica Noam Chomsky, "foi sempre o centro da vida comercial e cultural palestina, expandida com colônias israelenses. Enquanto isso, os Estados Unidos fornecem vasta assistência econômica e militar, que permite que Israel expanda suas colônias nos territórios ocupados e imponha um regime duro e brutal que impediu o desenvolvimento, sujeitando a população palestina a humilhação e repressão diárias, num processo que se intensificou ao longo dos anos 90".
Nesse contexto, o fim da guerra fria criava uma nova realidade regional para alguns países do Oriente Médio, que se sentiam cada vez mais desamparados, frente a dissolução da União Soviética. O drama do povo palestino aumentava e, se por um lado a população continuou combatendo a ocupação israelense de todas as formas, as lideranças políticas, principalmente Iasser Arafat, passaram a apostar como nunca antes, em uma ação diplomática mais efetiva para criação de um Estado palestino soberano com capital em Jerusalém oriental.
A radicalização da luta contra a ocupação israelense foi agravada com a segunda intifada, ou a intifada de Al Aqsa, iniciada em 29 de setembro de 2000, após uma visita provocativa do hoje primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, à Esplanada das Mesquitas, quando dois dias depois, o exército israelense matou dezenas de palestinos indefesos que estavam saindo da mesquita de Al Aqsa, um dos locais mais sagrados do islamismo, frustrando os palestinos diante de um processo de paz que se arrasta desde os Acordos de Oslo em 1993.
Sobre esse episódio, Noam Chomsky afirma que, "nos dias seguintes Israel usou helicópteros para atacar alvos civis, matando muitas pessoas. Todo conflito aconteceu nos territórios ocupados e os palestinos não responderam ao fogo. Em 3 de outubro, o presidente Clinton reagiu com a maior transação militar da década, enviando helicópteros militares avançados a Israel (algo que o país não pode produzir), e o Pentágono anunciou que não haveria restrições ao uso deles pelos israelenses. Israel logo estaria usando-os para assassinatos políticos. Os Estados Unidos fizeram reprimendas amenas e continuaram entregando às forças israelenses os helicópteros mais avançados de que dispunham em seu arsenal. Em maio, Israel empregou os seus F16 mais avançados para atacar os palestinos. Pouco depois, os Estados Unidos concordaram em fornecer mais F16 avançados a Israel. Trata-se de apenas um exemplo. O histórico revela claramente um dedicado esforço dos Estados Unidos, iniciado há cerca de 30 anos, para apoiar a expansão e a repressão israelenses e solapar os direitos nacionais palestinos.".




Para o analista político Mohamad Mahr, "a estagnação do processo de paz fomenta o extremismo. Cerca de 1,2 milhão de palestinos vivem na faixa de Gaza, a maior 'prisão' do mundo. É o ambiente ideal para o extremismo". Mahr diz que seria um ato de coragem repensar o papel do país na região, deixando de vetar o envio de observadores internacionais aos territórios ocupados".
O professor e intelectual palestino radicado nos Estados Unidos Edward Said, afirma que a aceitação do Acordo de Oslo é comparada com o consenso em relação à globalização e à economia de mercado. Said avalia que o único ponto que pode ajudar um povo pobre ainda fazer frente a esses projetos assumidos como únicos, é o fator humano e cultural, onde a conscientização individual e coletiva sobre o direito à vida e à autodeterminação pode proporcionar alguma mudança. "Se há algum fator com que os palestinos podem enfrentar Israel é, de fato, o aspecto moral. Militar e economicamente eles estão em desvantagem evidente. Mas podem mostrar, no entanto, a 'imoralidade' da ocupação israelense na Palestina. Não há outro caminho senão voltar a atenção da opinião pública para questões concretas que se apresentam no cotidiano do povo palestino ainda sob ocupação. Falar de humilhação nas barreiras das estradas, na demolição de casas, no confisco de terras, na apreensão do dia-a-dia que as pessoas estão vivendo na Palestina pós-Oslo."
Além de sustentar o Estado de Israel, a política externa dos Estados Unidos para o Oriente Médio, vem apoiando monarquias tiranas, agravando a fome no Iraque, com o boicote econômico desde a guerra do Golfo, e produzindo golpes de Estado, como foi o caso dos guerrilheiros afegãos, que com apoio norte-americano, na luta contra a ocupação soviética, formaram o Taleban e tomaram a capital Cabul em 1996 e agora, são acusados de cumplicidade no ataque terrorista de 11 de setembro.

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