Atualidades

Bin Laden? Não. Eurásia é o nome do jogo.

Se você não conhece o termo "Trateca", você terá algumas dificuldades para compreender os verdadeiros interesses que estão atualmente em jogo no Afeganistão. Inversamente, basta explicar o seu significado e você logo vai perceber que o tal "combate ao terrorismo" é só um pretexto para a intervenção dos Estados Unidos na região -- tanto quanto o "combate ao narcotráfico" serve para justificar a crescente presença militar do Tio Sam na Amazônia.
"Traceca" é um nome composto com as inicias, em inglês, de Corredor de Transporte Europa -- Cáucaso -- Ásia Central. Trata-se da "nova Rota da Seda" (o famoso caminho percorrido por Marco Pólo), um composto rodo-ferroviário destinado a ligar a Europa mediterrânea até a China, passando necessariamente pelo norte do Afeganistão, Ásia Central e Turquia. A construção desse imenso complexo -- com fundos da União Européia (EU) e do Banco para o Desenvolvimento da Ásia (BDA) será combinada com a instalação de oleodutos que vão abastecer o mercado ocidental.
Alguns números ajudam a ilustrar o que está em jogo. Apenas os cinco países da bacia do Cáspio -- Azerbaijão, Cazaquistão, Irã, Rússia e Turcomenistão -- possuem reservas estimadas em 200 bilhões de barris de petróleo e um volume comparável de gás. Três deles -- Azerbaijão, Casaquistão e Turcomenistão -- contém mais petróleo e gás do que o Golfo pérsico. As cinco maiores empresas petrolíferas dos Estados Unidos (Chevron, Conoco, Texaco, Móbil Oil e Unocal) concluíram ou estão concluindo uma série de acordos bilionários com esses países (exceto o Irã) para explorar suas reservas.
O "Traceca", obviamente, será um componente fundamental da estruturação da economia da Eurásia no século XXl, tanto como eixo de transporte do petróleo como corredor de trocas comerciais. O traçado da nova Rota da Seda já começou a ser discutido em uma recente conferência, realizada em Baku (capital do Azerbaijão), com a presença de 700 delegados de 30 países da Europa e da Ásia. Em termos geoestratégicos, o Afeganistão está destinado a ocupar um lugar central nessa economia, como região de passagem e contato entre o extremo asiático, o Oriente Médio e a Europa.
Em grande parte, o traçado da futura rota também ajuda a explicar os conflitos entre Índia e Paquistão. Cashmira, a região atualmente em disputa entre os dois países, pode se tornar um dos pontos de passagem obrigatória da estrada, o que explica o seu imenso valor estratégico, além da questão cultural e religiosa envolvidas. Não é para menos que as duas potências regionais quase chegaram ao confronto nuclear.
Agora fica fácil entender porque que em 1992, o influente senador Robert Dole, espécie de porta-voz do stablishment republicano, declarou que as "preocupações" dos Estados Unidos quanto às reservas de petróleo e gás mundial haviam se ampliado da região do Golfo "rumo ao norte, incluindo o Cáucaso, o Casaquistão e a Sibéria". E cinco anos depois, o senador Sam Brownback fez aprovar uma nova resolução conhecida como "Estratégia da Rota da Seda", segundo a qual os Estados Unidos deveriam "ampliar a sua presença" na bacia do Cáspio, à medida em que são construídos novos oleodutos entre Oriente e Ocidente através daquela região. Mas, mesmo isso ainda é só parte da história. A "economia do petróleo" não é suficiente para explicar em toda sua abrangência o sentido estratégico da intervenção militar dos Estados Unidos no Afeganistão.
Há uma questão no fundo ainda mais forte, de natureza estrutural: trata-se da conquista da hegemonia geopolítica de áreas que, historicamente ficaram sob a "esfera de influência" da Grande Mãe Rússia (czarista e, depois de 1917, bolchevique). Em 1992, o Pentágono aprovou uma resolução, intitulada Defense Planning Guidance (Guia de Planejamento de Defesa), trechos da qual foram publicados no jornal The New York Times (de 03 de agosto de 1992), que estabelece, como um de seus objetivos centrais, "neutralizar" e "impedir o renascimento" da rival Rússia. Isso tinha, como uma das conseqüências imediatas, "ampliar a presença" dos Estados Unidos nos países que faziam parte da União Soviética, assim como nos Bálcãs e no antigo Leste europeu. Zbigniew Brzezinski, ex-chefe do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos e um de seus mais influentes estrategistas, arrola três razões para "neutralizar" a Rússia: é o país que liga a Europa à Ásia, é dona de vastos recursos naturais (ainda mais se contar com os países sob sua influência) e, sendo altamente instável do pnto de vista polçítico, pode permitir que novos movimentos comunistas ou nacionalistas tomem o poder, assim como provar-se incapaz de conter a "expansão islâmica".
Isso explica, entre outras coisas, as críticas de Washington à guerra que a Rússia move contra a Tchetchênia. Ironicamente, os porta-vozes da Casa Branca sempre acusaram Moscou de usar o "combate ao terrorismo" com o mero pretexto para atacar os tchetchenos. Para os porta-vozes do Tio Sam, trata-se da "velha vontade imperialista russa de dominar as fontes e as linhas de abastecimento de petróleo e gás iranianos e da bacia do mar Cáspio, e, com isso, garantir uma influência forte sobre a vida econômica de seus adversários". A Tchetchenia está "sentada" sobre um dos oleodutos-chave que ligam a Rússia a um porto do mar Negro, passando pelo Bósforo, na Turquia, e chegando ao mar Mediterrâneo. Agora, Washington usa o mesmo pretexto do "combate ao terrorismo" para instalar sua presença militar na Ásia Central, com o objetivo de "neutralizar" a rival Rússia. O verdadeiro nome do jogo é "conquista da Eurásia", pedra angular da estratégia da Casa Branca. "Cerca de 75% da população mundial vive na Eurásia, que possui a maior parte dos recursos naturais do planeta... Ali estão 60% do PIB do planeta e cerca de 75% de suas reservas conhecidas de energia... Depois dos Estados Unidos, as outras seis maiores economias e os seis maiores investidores em armas estão na Eurásia. Todos os poderes nucleares, exceto um, estão ali localizados" (v. Zbigniew Brzenzinski, The Grande Chessboard: American Primacy and its Geostrategic Imperativs, New York, Basic Books, 1997).
A "conquista da Eurásia" foi também o que motivou a intervenção do Tio Sam nos Bálcãs, em particular, durante a Guerra do Kosovo, assim como a crescente instrumentalização da Otan, em detrimento da ONU. A deposição e o julgamento de Slobodan Milosevic serviram como um "recado" de Washington à elite da Sérvia: os históricos laços de "amizade" com Moscou deveriam ser rompidos por todos aqueles que queriam ter algum futuro em suas carreiras como políticos, chefes militares ou mesmo no campo das finanças e da economia.
Antes da Guerra do Kosovo, em 1994, Bill Clinton já havia manifestado sua vontade em colocar a Europa Central sob o "guarda-chuva" da Otan. Anunciou a "Parceria pela Paz", uma iniciativa que previa nada menos que a adesão de todos os países da Europa à Otan, incluindo a própria Rússia! É claro que, nesse caso, os generais de Moscou teriam que se submeter às determinações da aliança militar. À época, Mikhail Gorbatchov declarou tratar-se de uma estratégia perigosa e humilhante para os russos. A Guerra do Kosovo fez aquilo que não foi possível com a Parceria pela Paz: estendeu as fronteiras da Otan até a fronteira com a Rússia e, de quebra, colocou a ONU completamente de escanteio. Agora, na Ásia Central, novamente a ONU é soterrada sob os escombros da ficção de uma ordem internacional minimamente representativa dos interesses de uma suposta comunidade de nações. Osama Bin Laden, desse ponto de vista, é no máximo um aprendiz de terrorista.

O texto acima é de autoria do jornalista e professor José Arbex Jr. e foi publicado no Jornal dos Professores do Sindicato dos Professores de São Paulo de outubro/novembro de 2001.



Mais textos de Atualidades

"Guerra ao narcotráfico" é nova desculpa "humanitária" 04/05/2000
10 Anos de Reunificação Alemã 22/10/2000
11 DE SETEMBRO 08/09/2002
A ameaça nazista ronda a Áustria 04/05/2000
A Crise Iugoslava 04/05/2000
A Dívida Externa Brasileira 04/09/2000
A ditadura militar 04/05/2000
A Escravidão é um crime. 07/04/2003
A espiritualidade do Carnaval 15/03/2007
A guerra do desprezo - por José Saramago 04/06/2000
A Guerra no Iraque 07/04/2003
A Igreja Católica 23/05/2007
A Ku Klux Klan e a segregação racial nos Estados Unidos 30/05/2001
A Lei Islâmica e o Indivíduo 25/09/2001
A mídia e Pinochet 14/03/2007
A morte de Milosevic 16/07/2001
A Negociação de Paz na Crise Iugoslava 04/05/2000
A nova cruzada contra o Islam 31/10/2001
A política externa dos Estados Unidos no Centro do Atual Drama do Povo Americano 24/10/2001
A Queda de Milosevic 10/10/2000
A Questão da Irlanda 04/05/2000
A Venezuela e o plebiscito 22/02/2005
Alemanha: Indenização para vítimas do Holocausto 04/05/2000
ARGENTINA: EX-DITADORES VÃO A JULGAMENTO 04/05/2000
As eleições em Taiwan 04/05/2000
As raças não existem 12/05/2009
Bin Laden? Não. Eurásia é o nome do jogo. 23/11/2001
Brasil: 500 anos 04/05/2000
Che Guevara 09/10/2007
Chile - Breve história 04/05/2000
Colômbia em números 04/05/2000
Conferência contra o Racismo 25/09/2001
Contra o terrorismo 14/09/2001
Coréia: Quem dividiu? 25/06/2000
CUBA 04/05/2000
Cuba: Elián, o fim do embargo e a Revolução 07/11/2000
Democrata ou Republicano 15/02/2005
Descaminhos do setor elétrico 06/07/2004
DIAMANTINA 04/05/2000
Eleições 2006 19/09/2006
Eleições no Afeganistão 03/03/2005
Estados Unidos: Eleições 2000 14/11/2000
ETA, o País Basco e a autodeterminação 14/08/2000
Etnocentrismo e Anacronismo no descobrimento do Brasil 08/06/2000
Guerra, Política e Entretenimento 15/07/2003
HAITI 29/01/2010
Impostos 12/12/2006
Intolerância do Taleban destrói patrimônio histórico 13/09/2001
IRÃ, ANO 2000: A NOVA REVOLUÇÃO 04/05/2000
Jogos Pan-Americanos 15/03/2007
Kosovo e Timor: tratamento diferente para dramas idênticos? (Alain Frachon) 04/05/2000
LÍBANO: 22 ANOS DE OCUPAÇÃO ISRAELENSE 04/05/2000
Lula Presidente: Um Novo Brasil
México: fim da hegemonia do P.R.I 09/07/2000
Novas revelações sobre a Operação Condor 18/07/2000
Novos conflitos em Jerusalém 10/10/2000
O anti João XXIII 29/04/2005
O Combate à Fome
O Crescimento do Islam e o Taleban 10/10/2000
O Ensino da História Africana 07/04/2003
O Genocídio Helênico 15/05/2001
O Governo Allende 04/05/2000
O Papa na terra santa 04/05/2000
O Preço da Fé 07/05/2007
O Submarino Kursk e a Guerra Fria 22/08/2000
Organizar idéias é o primeiro passo 30/01/2006
Oriente Médio 04/05/2000
Os Conflitos na Índia 27/08/2003
Os Primeiros Hominídeos Imigrantes 14/08/2000
Peru: Autoritarismo e Preconceito 08/06/2000
Plano Colômbia: mais uma do imperialismo norte-americano 11/01/2001
Plantation do séc. XXI 13/10/2008
Quando o sol poente engole o nascente 04/05/2006
Quem é Ariel Sharon? Seu passado e a perspectiva para paz no Oriente Médio com a vitória da direita em Israel 12/09/2001
Resistência islâmica retira Israel do sul do Líbano 04/06/2000
Submarino 17/10/2006
Torre de Pisa: A Recuperação da História 04/07/2000
Um ano da Nova Intifada 31/03/2002
Vietnã-EUA: 25 anos depois 21/11/2000
Vietnã: 25 anos depois 04/06/2000
Tire Dúvidas
Seja Colaborador


Procure nos conteúdos:

Cadastre-seReceba atualizações