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Cola On line

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Sites de trabalhos escolares viraram fonte obrigatória de pesquisa. Há quem os use para consultas e os que simplesmente copiam tudo
Dona do maior acervo da América Latina, com 8,5 milhões de livros e raridades, a Biblioteca Nacional recebe 15 mil visitantes por mês. Lançado na internet há pouco mais de um ano, o ".... " site que oferece trabalhos acadêmicos já prontos e gratuitamente, teve 223 mil visitas somente em março. Mesmo ponderando que é mais fácil acessar uma página no computador que se deslocar até a sede da biblioteca, no Centro do Rio de Janeiro, a comparação assusta. É um sinal do sucesso que estão fazendo os sites de trabalhos prontos - cujos textos vêm sendo usados pelos estudantes em colégios e faculdades. No Google, o mais eficiente site de busca na internet, uma pesquisa de "trabalhos prontos" lista 1.960 endereços eletrônicos.
A oferta é tentadora: com dois cliques, o estudante consegue um trabalho completo para apresentá-lo em aula como se fosse obra sua. Nos Estados Unidos, há tal profusão desses sites que as escolas já criaram programas de computador especializados em detectar a cola virtual. No Brasil, universidades e escolas ainda não acordaram para o perigo. Os "sites desse tipo" daqui continuam com vida mansa.
Perdem a qualidade de ensino e a credibilidade dos diplomas, ganham os donos de sites. Ninguém está nesse ramo de negócio com preocupações altruístas, querendo auxiliar estudantes que trabalham e não têm tempo para fazer seus deveres acadêmicos. A maioria dos sites cobra pelo serviço. Os textos custam, em média, R$ 5 por página. O "site" ainda se dá ao requinte de prometer ao comprador que um material igual não será vendido para o mesmo lugar em que ele estuda. A qualidade dos arquivos é atestada pelos comentários que alguns clientes deixam registrados no site. "É a segunda vez que recorro a este site, pois fui muito bem atendida e obtive nota 10 no trabalho", escreveu uma internauta agradecida.
Os donos do "...." - o maior acervo do ramo, com mais de 3 mil títulos - dizem que ainda não ganharam um tostão com a idéia. Têm esperança, como toda a torcida do Flamengo que investiu na internet, de em breve vender espaço publicitário. A página surgiu depois que um dos sócios, Mauricio Nahas, teve de fazer um trabalho sobre a Palestina e encontrou dificuldades. Imaginou então que estudantes de outros Estados poderiam ter o mesmo problema e resolveu fazer um site em que alunos pudessem trocar trabalhos sem pagar. Os donos insistem que não criaram um instrumento para facilitar a cola. "Não vou ser ingênuo e dizer que ninguém apresenta o trabalho copiado, mas nossa idéia é servir apenas como fonte de referência", diz Nahas.
Não há nada de errado em visitar sites e tirar dali informações para uma pesquisa. O problema começa quando o aluno imprime o trabalho completo e o apresenta como se fosse seu ou faz uma colagem de vários textos. "Esses sites facilitam minha vida porque não preciso perder muito tempo procurando em outros lugares", diz a estudante Márcia Andrade, aluna do sétimo período de publicidade das Faculdades Integradas Hélio Alonso, no Rio. "Mas nunca copiei. Sempre acrescento algo", observa. Um outro estudante, da Universidade Estácio de Sá, pede anonimato, mas confessa que usa sempre os sites para se safar das avaliações. "Ou me dedico a meu estágio, ou faço os trabalhos", justifica-se.
"A internet tornou-se um convite à desonestidade", escreveu o sociólogo José Pastore num artigo sobre o tema. "A manutenção da ética nos estudos é tão importante quanto a preservação da ética no trabalho. Se há dez anos consegui apanhar um cego colando, imaginem o que se passa nos dias atuais com tantas facilidades da tecnologia." Para ele, "o desafio é usar a mesma tecnologia e elaborar os códigos de ética para formar nas escolas bons profissionais, e não simples plagiadores". A pedagoga Raquel Villardi, do programa de pós-graduação em educação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, considera que os professores têm parte da culpa. Ela acredita que os colegas poderiam acabar com a prática da cópia em sites se pedissem trabalhos mais originais e específicos. "Se o pedido for bem formulado, dificilmente o aluno encontrará já pronto o que o professor solicitou", explica. Raquel acha que os sites não devem ser crucificados: "O site, em si, não é ruim. O problema é o uso que se faz dele. Meu filho o usa como referência e aprovo. O mercado hoje valoriza aqueles que sabem onde estão as informações", conclui. Coordenador de ensino das Faculdades Hélio Alonso, Nailton Agostinho também absolve os sites. "Aqueles que copiam na internet fariam o mesmo na biblioteca. A questão é essa: vivemos numa sociedade de cópia."

A julgar por uma pesquisa realizada nos EUA, não são poucos os que recorrem à cola virtual. Uma enquete feita na Carolina do Norte mostrou que 97% dos alunos admitem ter trapaceado na vida acadêmica. Destes, 15% afirmaram que apresentaram como se fossem seus trabalhos obtidos na internet. A própria rede está servindo como arma de defesa das escolas americanas. Um programa do site Turnitin.com varre a rede procurando coincidências em textos já apresentados ou publicados. É usado por 15 mil instituições de ensino no mundo.
No Brasil, a única ferramenta à disposição dos professores é o desconfiômetro. Só é flagrado aquele aluno medíocre que, de uma hora para outra, apresenta um trabalho brilhante ou o que entrega material que o professor acha familiar. Procurado por ÉPOCA, o Ministério da Educação informou em nota que cabe às escolas e universidades a fiscalização dos trabalhos. Das 14 instituições ouvidas pela reportagem, nenhuma soube informar um único caso de punição a seus alunos.

Os sites de cola são a versão virtual de uma velha prática: a venda de trabalhos prontos, inclusive monografias. Não é difícil encontrar nos classificados de jornais anúncios de escritores de aluguel que se propõem a preparar teses para formandos. Waldo Luís Viana, que se intitula "o mais caro do Brasil", cobra R$ 1.000 por uma monografia de 50 páginas e R$ 2 mil por uma dissertação de mestrado. "Não sou vigarista. Recebo para escrever. O que o aluno vai fazer com minha obra é problema dele", diz Viana, que faz quatro trabalhos por mês. Ele acredita que as universidades não evoluíram: "Exigem até quatro trabalhos por mês. Ninguém tem tempo para isso".
A professora e antropóloga Eunice Durham, que integrou o Conselho Nacional de Educação do Ensino Superior do MEC, discorda. Ela diz que os trabalhos são fundamentais para a formação dos estudantes. "Eles são importantes para que o aluno exercite seu conhecimento", afirma. "Quem apresenta trabalho comprado é falsificador, não tem outra qualificação." Para o criminalista Paulo Ramalho, porém, a prática não configura nenhum crime: "A proteção é ao direito do autor. A partir do momento em que este autoriza a cópia, não há crime", diz Ramalho, que admite ter escrito discursos para amigos na universidade.
Encomendar um trabalho na internet não é necessariamente sinônimo de problema resolvido. No ano passado, um estudante do último ano de administração da Estácio de Sá apresentou uma monografia sobre comércio exterior pela qual pagou R$ 350 a um escritor de aluguel que publicava anúncios em jornais. Mas o professor percebeu que ele tinha comprado o trabalho. Teve de passar mais um período na faculdade e, quando tentou cobrar o dinheiro de volta do autor, levou a porta na cara. Agora, está fazendo sua monografia. A vida dos "zés" nem sempre é uma moleza.


REVISTA ÉPOCA
Edição 205 22/04/2002



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Repudiamos a venda de trabalhos pele internet, prática que nunca foi adotada pelo HISTORIANET e consideramos que nossos textos possam ser utilizados como fonte de informação para trabalhos escolares, nunca copiados.
Mesmo quando utilizados como fonte ou referência para um trabalho, em conjunto com outras fontes, o HISTORIANET deve ser citado pelo autor do trabalho em sua bibliografia.

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