HISTORIANET

Biografias

Danton

DANTON, Georges-Jacques
(1759-1794) - Modesto advogado antes da Revolução, aderiu a ela desde os primeiros momentos. Fundou o Clube dos Cordeliers. Foi um dos principais artífices da insurreição de 10 de agosto e foi nomeado ministro da Justiça. Alguns o consideram responsável pelos massacres de setembro. Eleito na Convenção, foi enviado em missão à Bélgica. De volta a Paris, votou pela morte do rei, apesar de no._ início parecer procurar poupá-lo. Em abril de 1793 entrou no Comitê de Saúde Pública, do qual foi afastado em julho. Procurando resistir ao Terror, tornou-se juntamente com Desmoulins o chefe dos Indulgentes, contra Robespierre e seus seguidores. Preso a 30 de março de1794, foi condenado á morte e guilhotinado a 5 de abril.


DANTON

Por GILLES MARTINET*

Resignou-se, finalmente, a sustentar o fim dos massacres. Assinou, dessa forma, sua sentença de morte. Saint-Just acusou-o de esconder fraquezas sob "o trovão de seu próprio discurso"

Era forte, atlético e feio. Sensual e preguiçoso, com alguns momentos sublimes de energia e de coragem. Era um homem de intuições e de paixões. O seu talento oratório se exprimia com frases violentas, mas o seu coração o levava para a indulgência num tempo em que manifestá-la era mortal. Como tantos outros protagonistas daquele período febril e atormentado, se não houvesse estourado a Revolução teria seguido provavelmente uma modesta carreira de advogado. Mas ele soube encarnar aquela Revolução como nenhum outro, com a sua grandeza, as suas contradições e suas fraquezas. Quando os historiadores republicanos, Michelet em primeiro lugar, se sentiram na obrigação de enaltecer um herói, é nele que pensaram. Não podiam exaltar nem Mirabeau nem La Fayette, estes tinham lutado por uma monarquia liberal, e não pela República. Hesitaram diante dos Girondinos: tinham demonstrado fraqueza demais nos momentos decisivos. Recusaram Robespierre, por não querer associar a imagem da República com aquela do Terror. Ninguém sobrava, além de Danton - e ele foi, efetivamente, um dos grandes artífices da queda da monarquia, e tentou pôr um fim ao Terror.

Esta valorização de Danton provocaria o furor da escola histórica de inspiração socialista e comunista que, seguindo Mathiez, se esforçou para reabilitar Robespierre. Esta escola não podia admitir que se colocassem acima do Incorruptível, aquele homem venal e superficial que Danton foi em alguns instantes da sua vida. E, em verdade, Danton não tinha nem o rigor moral nem a inteligência política de Robespierre. Mas era infinitamente mais humano e menos sistemático. Não via agentes de uma gigantesca conspiração em todos aqueles que não pensassem como ele. Disse um dia: "Os homens nascidos sem o vigor revolucionário nem por isso devem ser considerados e tratados como culpados." E antes de romper com os Girondinos, procurou longamente reconciliar-se com os Montanheses. Danton considerava-se discípulo dos Enciclopedistas, mesmo não tendo lido muitas de suas obras. Robespierre, ao contrário, denunciara "aqueles charlatães ambiciosos", "aquela seita que, em matéria política, permanecerá sempre abaixo dos direitos do povo". Entre Danton e Robespierre reaparecia o conflito que opusera Diderot, e a maioria de seus colaboradores, a Jean-Jacques Rousseau. Seria possível reformar a sociedade sem fazer tábula rasa do passado? Os Enciclopedistas achavam que sim, Rousseau não. Segundo ele a sociedade era corruptora. E a liberdade não poderia triunfar se antes a virtude não fosse imposta através da educação e força da lei.



A primeira fase da Revolução pode ser colocada sob o signo dos Enciclopedistas, a fase jacobina sob o signo de Rousseau. Mas, na realidade, não há solução de continuidade entre as duas fases. No momento mesmo em que a nação se proclama unida e reconciliada, a lógica da ruptura e da violência já está presente. Danton, espírito conciliador e agitador ao mesmo tempo, deixa-se levar pela maré montante. Não será ele a provocar os massacres do setembro de 1792 - mas nada faz para impedi-los. Estava convencido de que somente quem fica no meio da correnteza pode represá-la: "Temos de ser terríveis para impedir o povo de sê-lo."
A justificativa de Danton é o perigo que a nação corre por causa da guerra, imprudentemente provocada pelos Girondinos. O melhor de si o dará no verão de 1792, quando a França é invadida e Paris ameaçada. Ele é o homem da "pátria em perigo" e da mobilização de massa, é ele que chama os cidadãos às armas. "Se é justo", diz, "fazer as leis com maturidade, para fazer bem a guerra serve o entusiasmo... Audácia, ainda audácia e sempre audácia. "O perigo leva todavia a Revolução a tornar-se mais dura e a fechar-se em si mesma. A 11 de março de 1793 é instituído o Tribunal Revolucionário. Danton é então ministro d~1Justiç~1, A 5 de setembro do mesmo ano, a Convenção coloca o Terror na ordem-do-dia, Danton continuava "navegar na correnteza". Mas o mecanismo que ele contribuiu para pôr em movimento inspira-lhe temor, De tanto em tanto, abandona Paris, privilegiando a sua vida particular em detrimento daquela pública.
Resigna-se, finalmente, a sustentar a indulgência, o fim dos massacres, Assina, dessa forma, a sua condenação à morte, Saint-Just tem assim um pretexto para denunciar nele o homem que esconde fraquezas por baixo "do trovão dos seus próprios discursos", No Tribunal, Danton não foi, porém, um fraco. Foi magnifico. Os juízes, contestados e ridicularizados, não sabiam o que fazer.
Foi então que Saint-Just fez votar aquele decreto infame que punha os imputados "fora do debate", impossibilitados a defender-se. A 5 de abril de 1794, Danton e seus seguidores são guilhotinados, Robespierre e Saint-Just terão o mesmo fim a 28 de julho. Virá depois um período em que os republicanos serão minoria, mas lograrão manter-se no poder por meio daquilo que hoje chamamos de "direção coletiva", Enfim, o destino se apresentará na figura de um jovem general jacobino, coberto da glória da campanha da Itália, É uma conclusão inevitável, Quando a liberdade é por longo tempo recusada aos adversários da Revulução, e aos revolucionários suspeitos de indulgência, não vence Robespierre ou Trotsky, mas Napoleão ou Stálin,


GILLES MARTINET
Escritor e diplomata francês. Foi embaixador em Roma.
Escreveu, entre outros livros, Le Système Pompidou (1973) e La Conquete des
Pouvoirs (1968)


Este texto pertence a edição comemorativa dos 200 anos da Revolução Francesa, publicado pela Revista Isto É, em 1989


LEIA MAIS NO HISTORIANET

Danton, o processo da Revolução

Revolução Francesa

Pesquisar em
1128 conteúdos

Notícias

MASP

Passagens por Paris - Arte moderna na capital do séc. XIX

Notícias

Universidades latinas atraem poucos estrangeiros

Instituições têm melhorado sua presença em rankings internacionais, mas continua

Roteiros de Aula

Ninguém tira Zero

Província elimina nota zero para proteger autoestima de alunos

Notícias

França e Alemanha lembram 100 anos da Primeira Guerra

Presidentes Hollande e Gauck homenageiam mortos nas batalhas e destacam importân

COPYRIGHT © HISTÓRIANET INTERNETWORKS LTDA

PRODUZIDO POR

SOBRE O HISTORIANET