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Brasil Colônia

A Sociedade Patriarcal

SOCIEDADE PATRIARCAL


A família era tudo, nada menos. Seguindo a tradição da época em que os portugueses se instalaram no Brasil, a família não se compunha apenas de matido, mulher e filhos. Era um verdadeiro clã, induindo a esposa, eventuais (e disfarçadas) concubinas, filhos, parentes, padrinhos, afilhados, amigos, dependentes e ex-escravos. Uma imensa legião de agregados submetidos à autoridade indiscutível que emanava da temida e venerada figura do patriarca. Temida, porque possuía o direito de controlar a vida e as propriedades de sua mulher e filhos; venerada, porque o patriarca encarnava, no coração e na mente de seus comandados, todas as virtudes e qualidades possíveis a um ser humano.



"Era o patriarca de um grupo de famílias. (...) Era o Pai, o Sogro, o Avô; mas, antes de tudo, o Amigo e o Conselheiro. Jamais alguém ousou desrespeitá-lo, no lar ou fora dele. (...) Encamava a sabedoria e ninguém dele se aproximava sem que, de imediato, se sentisse envolvido pela confiança que irradiava de sua marcante personalidade". (Aroldo de Azevedo, referindo-se ao fazendeiro Ignácio Cochrane.)
E quem era esse patriarca orgulhoso, a quem se submetiam tudo e todos? Era o grande senhor rural, proprietário de terras incomensuráveis, onde se plantavam as bases da economia brasileira: café, cacau, cana-de-açúcar e outras grandes lavouras. Era ele que desde os tempos coloniais e imperiais presidia a única ordem perfeita e íntegra da sociedade brasileira: a organização
familiar. Não havia comunidades sólidas, sindicatos, clubes ou outros órgãos que congregassem pessoas de interesses similares. A família, a grande família patriarcal, ocupava todos esses espaços. E o que não fosse provido por ela representava um corpo estranho e indesejável. O próprio Estado, que enquanto ordem pública deveria estar acima das questões familiares, esbarrava nestas quando necessitava intervir. Mas os governantes sabiam que essa família exclusivista, dobrada sobre si mesma e solidamente organizada, era, por sua vez, o sustentáculo do Estado, pois impedia que a população, tão escassa e
quase nômade, se pulverizasse neste imenso país.

A famflia patriarcal era, portanto, a espinha dorsal da sociedade e desempenhava os papéis de procriação, administração econômica e direção política. Na casa-grande, coração e cérebro das poderosas fazendas, nasciam os numerosos filhos e netos do patriarca, traçavam-se os destinos da fazenda e educavam-se os futuros dirigentes do país. Cada um com seu papel, todos se moviam segundo intensa cooperação. A unidade da família devia ser preservadá a todo custo, e, por isso, eram comuns os casamentos entre parentes. A fortuna do clã e suas propriedades se mantinham assim indivisíveis sob a chefia do patriarca.



E a família patriarcal era o mundo do homem por excelência. Crianças e mulheres não passavam de seres insignificantes e amedrontados, cuja maior aspiração eram as boas graças do patriarca. A situação de mando masculino era de tal natureza que os varões não reconheciam sequer a autoridade religiosa dos padres. Assistiam à missa, sem a menor manifestação daquela humildade cristã do crente (própria, aliás, das mulheres), assumindo sempre ares de proprietário da capela, protetor da religião, bom contribuinte da Igreja. Jamais um orgulhoso varão se dignaria de beijar as mãos de um clérigo, como o faziam sua esposa e filhas. Nesse universo masculino, os filhos mais velhos também desfrutavam imensos privilégios, especialmente em relação a seus irmãos. E os homens em geral dispunham de infinitas regalias, a começar pela dupla moral vigente, que lhes permitia aventuras com criadas e ex-escravas, desde que fosse guardada certa discrição, enquanto que às mulheres tudo era proibido, desde que não se destinasse à procriação.
Por mais enaltecido que fosse o papel de mãe, um obscuro destino esperava as mulheres. Uma senhora de elite, envolta numa aura de castidade e resignação, devia procriar e obedecer. Com os filhos mantinha poucos contatos, uma vez que os confiava aos cuidados de amas-de-leite, preceptoras e governantas. Sobravam-lhe as amenidades, as parcas leituras e a supervisão dos trabalhos domésticos. Até mesmo as linhas de parentesco, tão caras à sociedade patriarcal, só se tomavam "efetivas" quando provinham do homem. Desse modo, a mulher perdia a consangüinidade de sua própria família de origem, para adotar a do esposo.

"A pátria é a família amplificada. E a família, divinamente constituída, tem por elementos orgânicos a honra, a disciplina, a fidelidade, a benquerença, o sacrifício. É uma harmonia instintiva de vontades, uma desestudada permuta de abnegações, um tecido vivente de almas entrelaçadas. (...) Multiplicai a família, e tereis a pátria". (Ruy Barbosa)

Até meados do século XIX, a casa-grande era o modelo perfeito do fechado mundo patriarcal. A reduzida elite das grandes cidades - comerciantes, profissionais liberais e altos funcionários públicos - transportava esse modelo para os austeros sobrados urbanos: a mulher restringia-se às quatro paredes de sua casa, supervisionando o trabalho doméstico dos escravos (que se alojavam no andar térreo), como a confecção de roupas e a destilação de vinho.


Nos primeiros anos da República, a família patriarcal começa a mostrar sinais de fraqueza. Não que ela fosse incompatível com o novo regime. São as cidades, as novas profissões, a luz elétrica, os bondes, os imigrantes, as lojas comerciais, as indústrias, que ameaçam o patriarca.
Antes, ele podia manter seu extenso clã no mais completo isolamento. Seus agregados, famílias inteiras submetidas a ele, podiam ser ricos ou pobres, não importava, pois eram todos igualmente da grande Família. Trabalhavam em suas terras e obedeciam. Pouco a pouco, o patriarca é obrigado a se relacionar com os outrora indesejáveis elementos "de fora". Os filhos serão matriculados na Faculdade de Direito. Um dia, toma-se mais conveniente que seu primogênito se case, não mais com aquela obscura priminha remediada, mas com a filha de um riquíssimo banqueiro da capital. Ele próprio é forçado a ampliar seus negócios nos centros urbanos, para que seu patrimônio não sucumba à nova maré do progresso. Ele irá aplicar dinheiro em outras atividades, além da fazenda. Chega também o momento de abandonar a casa-grande e se mudar para um palacete na Capital. Talvez seja possível levar junto um parente ou outro, mas o grosso dos leais agregados fica por lá mesmo. E se tornam os "primos pobres" do interior, que, com o tempo, serão cada vez mais pobres e menos primos.
O império do patriarca se reduz. Ou, por outra, muda de natureza: agora ele é um industrial, um pioneiro no melhor estilo capitalista, um banqueiro, um grande negociante e também um fazendeiro.

"O mundo patriarcal se resumia na austera casa-grande, cercada de cafezais e terreiros, onde ecoavam as ordem dos capatazes e o burburinho dos escravos. Com os novos tempos, esse mundo irá se ampliar - e o patriarca se mudará com sua família para um palacete na Capital."



Homem que se prezasse era bem-falante. A oratória compunha a personalidade masculina do mesmo modo que o fraque, o chapéu-coco, o cravo na lapela e o soberbo bigode - tudo isso acompanhado, naturalmente, de um título de doutor.
"Seu Doutor" integrava o restrito exercito de bacharéis formados pelas faculdades de Direito, Engenharia e Medicina. Todas elas, e não só as de Direito (como geralmente se supõe), são terreno assolado pela retórica, a arte de bem falar. Isto é fácil de entender, já que o persuadir, o convencer e o dissuadir representavam as chaves mestras da política, do mando, do governo, do controle. E eram os bacharéis que assumiam as posições de controle no, Estado, nos negócios e na família.
Com eles, a arte da retórica transbordou os paços acadêmicos e as assembléias políticas para invadir todos os recantos da sociedade. Um retrato irônico da oratória brasileira durante a Belle Époque foi feito pela revista Kósmos, em 1906: "Vede-o, austero, severo, sério, braço esticado no ardor do improviso, olhos cerrados pela contenção do espírito, afirmando a sua dedicação a um partido ao qual talvez tenha que trair amanhã, ou afirrnando o seu nobre desejo de morrer pela Pátria, quando talvez o seu único sincero desejo seja o de repetir a galantina de macuco que foi servida há pouco... A oratória política de sobremesa é hoje uma instituição indestrutível. É em banquetes que os presidentes eleitos apresentam a sua plataforma, é em banquetes que se fundam partidos, e é em banquetes que se fazem e desfazem ministérios. São banquetes fartos, magníficos, em que se gasta dinheiro a rodo: e isso não admira, porque neles é sempre o povo quem paga o pato... ou o peru. O champagne espuma nas taças. Os convivas, encasacados e graves, fingem prestar atenção ao programa político do orador, mas estão realmente namorando o prato de fios d'ovos... E o orador invoca os 'fundadores da nossa nacionalidade', os 'sagrados princípios de Oitenta e Nove', e declara solenemente que 'o Brasil (...) será em breve, graças a uma política enérgica, o primeiro país do mundo! porque ele, orador, está disposto a dar por isso a sua tranqüilidade, o seu saber, o seu estudo, a sua saúde, a sua vida!' E senta-se suado e comovido, dizendo ao vizinho da esquerda: 'Que tal? falei bem? passe-me aquele prato de marrons-glacés...' "

Existiam, no entanto, numerosos outros tipos de oradores, que sempre arrumavam um jeito de dar o seu toque pessoal às ocasiões que se apresentavam.
"Aqui vos apresento o orador dos grêmios literários e dos clubs (...). E moço, pálido, elegante e poeta. Manda versos aos jornais, e tem sempre cinco ou seis namoradas. E, de todos os sócios do club, o que mais docemente sabe falar ao coração das moças. (...) Tem um madrigal para cada menina; e recita versos (...) entre uma polca e uma valsa, encostado ao piano, com os olhos pregados no teto Ja sala e um sombrio desengano refletido na face. (...) A meia-noite, quando o presidente do club convida as senhoras para a 'modesta ceia' (...), retorcendo o curto bigode frisado, o orador tempera a garganta com um cálice do Porto, e enceta o seu infalível brinde à mulher-mãe, à mulher-esposa, à mulher-filha, essa trilogia divina que é a trípode do amor e o triângulo da Crença!' O brinde é sempre o mesmo, e nunca deixa de comover o auditório (... ). Há, porém, ainda o orador dos Grupos e dos Cordões, que é do mesmo gênero, mas de espécie diferente. Este é mais pernóstico, e mais art noveau, no trajar e no falar, como janota e como orador.
(...) E o orador das funçanatas alegres, em que o piano alterna com o violão e a polca militar com a modinha. É o Lúcifer das Eloás de cabelo frisado e flor atrás da orelha. É o Don Juan das Elviras de vestido de chita e óleo-oriza no cabelo... A sua imensa gravata de seda vermelha em laço de borboleta é todo um poema; a sua gaforinha lustrosa, dividida em 'pastas', é todo um programa.
A bebida do orador político é o chanlpagne; a do orador dos clubs é o vinho do Porto; a deste é a cerveja. No fim da ceia, ei-lo que se levanta inspirado: fixa o punho esquerdo sobre a mesa, mete a mão direita no bolso da calça e solta o verbo. (...)
"E admirai agora o 'orador dos aniversários', aquele que bebe à saúde do aniversariante e da sua digna família. E sempre um amigo íntimo da casa, um papa-jantares, um bom moço, que namora a filha mais velha ou ocupa o lugar de guarda-livros do pai. Tem doçuras de mel na palavra, e nunca se esquece de dizer que o momento é solene, que sua voz é débil, e que a dona da casa é um modelo de virtudes. E, assim que principia a ceia, ainda no meio da canja saborosa, já a dona da casa, que não prescinde de receber o título de 'modelo de virtudes', diz com amabilidade: 'Queremos ver hoje o seu brindis, seu Maneco!' E seu Maneco, obsequiador: 'De que ousadias. não serei eu capaz para cumprir suas ordens, excelentíssima?!.


Este texto foi extraído da Coleção Nosso Século, volume 1;

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