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Biografias

Rembrandt




REMBRANDT HARRNENSZOON VAN RIJN, pintor e gravador holandês, nasceu no dia 15 de julho 1606, em Leyden. Famosoáe rico aos trinta anos, morreu incompreendido e na miséria aos 63. Em seu testamento deixou "algumas roupas de linho ou lã minhas coisas de pintor" e os quadros que marcaram um dos pontos culminantes na história da pintura.
Dono de um moinho à beira do rio Reno, seu pai, Harmen Gerritz, foi um homem pobre. Seu tempo era dedicado ao trabalho, à mulher - Neeltgen van Zuytbrouck -, aos cinco filhos e ao rio Reno, que se chama em holandês Rijn. Amou o rio, incorporou seu nome e passou a assinar. Harmen Gerritz van Rijn. Em casa, todos moíam o grão, só o quinto filho gostava mais de pintar do que moer e não queria deixar a escola. Fazendo sacrifícios, o pai Harmen matriculou Rembrandt na Universidade de Leyden, mas n ao conseguiu mantê-lo ali mais que nove meses.
Aos quinze anos Rembrandt larga a universidade, mas Van Swanenburgh não permite que largue a pintura. Jacob Isaaksz van Swanenburgh ensina as técnicas básicas, o preparo das tintas, a montagem das telas, a disciplina do desenho. Em 1623, a conselho do professor, Rembrandt vai para Amsterdam, a fim de "alargar os horizontes". Passa quase quatro anos freqüentando o atelier do pintor romanista Pieter Lastman, a primeira grande influência sobre a arte do moço Rembrandt. Lastman era um pintor da moda, formado na Itália. Desenvolvia no aluno o gosto pelos efeitos violentos e dramáticos, e o amor pela representação de enfeites, jóias e tecidos.

Desprezado pelos contemporâneos, chegou - por isso mesmo - à imortalidade.

Em 1627 Rembrandt volta a Leyden e instala seu próprio atelier, com Jan Lievens. No ano seguinte chama Gerard Dou - um menino de catorze anos - para trabalhar com eles. As primeiras águas-fortes são desta época.
O atelier vai muito bem, com encomendas particulares. Bock, o comerciante de arte, oferece um contrato vantajoso e Rembrandt resolve instalar-se em Amsterdam, em 1631. Um ano depois já é pintor famoso, um dos mais caros e procurados da cidade. Retrata os ricos e bem-sucedidos burgueses, pois pertence à moda enfeitar com o próprio retrato a parede da sala. Se o retrato é assinado por Rembrandt, aumenta o respeito pelo retratado.
É em 1632 que pinta um dos seus quadros mais famosos: A Lição de Anatomia do Doutor Tulp, que faz imediato sucesso e provoca dezenas de encomendas de retratos em grupo.
1634 é importantíssimo na vida do pintor. Neste ano atinge o auge da fama e prosperidade. No mesmo ano casa-se com Saskia van Uylenburgh - jovem, bonita, de boa família. Freqüenta a melhor sociedade e traz um bom dote. Instalam-se numa enorme casa na Jodenbreestraat, que transformam em centro de reunião social e em museu de objetos raros, móveis antigos, louças preciosas, tecidos caros e jóias belíssimas. O antigo e o modemo conseguem conviver naquela casa.
Seu atelier é um dos maiores da Europa e o mais famoso. Tem muitos alunos (entre eles Bol, Koninck, Flinck) e uma clientela tão entusiasmada como rica.
Essa tranqüilidade é perturbada pela morte precoce dos filhos. De quatro, três falecem antes de um ano; apenas o quarto, Tito, atingirá a idade adulta. Por fim, em 1642, morre-lhe a esposa, Saskia.
1642: ano do primeiro fracasso. Um quadro que fizera por encomenda - A Mudança de Guarda da Companhia
do Capitão Frans Bonninck Cocs, hoje conhecido como A Ronda Noturna - é recusado pelo capitão porque, em primeiro lugar, "encomendara o seu retrato e não o retrato da Companhia"; em segundo lugar, porque aquela não era uma cena de mudança de guarda e sim "o cenário de uma ópera-bufa"; e, em terceiro lugar, porque o preço era "muito alto". Os debates prejudicam Rembrandt. É acusado de pintar o que lhe agradasse.
Isto era verdade. Os burgueses esperavam ver as paredes de suas casas cobertas por quadros que retratassem o dono da casa, a dona da casa, os filhos, os criados, as roupas, os objetos de uso, os móveis, os animais de estimação, até a comida - como se a imagem pudesse perpetuá-los e preservar para sempre os seus haveres. Enquanto os clientes queriam retratos e não críticas, imagens do rosto e do corpo e não análises de suas almas, Rembrandt retratava o que queria, o que ele via e sentia. E entre centenas de retratos, pintados nos anos de 1630 a 1645, Rembrandt chegou inclusive a pintar auto-retratos - como se alguém comprasse o retrato de outro homem - e os retratos dos rabinos da rua onde morava - como se alguém comprasse o retrato de um judeu. No entanto, de tempos em tempos, Rembrandt sentava-se diante do espelho e - num exercício de estilo e investigação - retratava-se, procurando nos olhos e na boca o sinal do tempo, da paixão, da vida. Em seu próprio rosto, ele retratava principalmente a passagem do tempo e das dificuldades do dia-a-dia.

E as dificuldades aumentam, as encomendas começam a rarear, os poucos retratos pintados nos anos posteriores - como o de Nicolaes Bruyningh - são retratos psicológicos, magníficos, de uma beleza deslumbrante, de uma perspicácia assustadora - realmente assustadora para quem neles se via retratado.
Também eram freqüentes, na época, os retratos de grupo, encomendados por instituições, grandes companhias, lojas importantes, hospitais, escolas, universidades, assembléias. O problema de reunir numa só composição várias figurinos, cuja única vinculação era a vontade de se verem retratadas juntas, fez desses retratos uma arte menor, embora fossem regiamente pagas, por unidade, cabeças e mãos dos retratados. Rembrandt pintou tais grupos, mas procurava retratar realmente o grupo com um sentido de conjunto que lhe ressaltasse a atividade, sem descuidar dos detalhes pessoais de cada figurante.
A Lição de Anatomia do Doutor Tulp, A Ronda Noturna, Os Negociantes de Tecidos (prancha XIV/XV) são bons exemplos da arte de Rembrandt. Ele parece surpreender os cavaleiros em plena atividade, parece fotografá-los séculos antes da invenção da fotografia. Os grupos vibram e seus componentes atuam, o que não impede que faça um estudo psicológico de cada figura, de cada objeto em cena. É exatamente sua capacidade de retratar por completo os clientes que faz com que eles se afastem, temerosos de terem em casa ou no escritório uma crítica emoldurada.
A sociedade burguesa que se instalou na Holanda, revolucionando as condições de produção artística na Europa fez a fortuna de Rembrandt - e a sua desgraça. Com esta nova sociedade desaparece a procura de obras suntuárias destinadas às igrejas e aos palácios. A arquitetura limita-se a projetar residências; os edifícios holandeses são modestas construções de tijolo, cujas partes nobres são salientadas por molduras de pedra. As casas são equilibradas e com interiores baixos, confortáveis, de muito bom gosto, mas onde também não há lugar para grandes quadros. A pintura holandesa se especializa em quadros de pequenas dimensões e este tamanho não permite os mesmos temas que serviam anteriormente à pintura. Seus temas agora são objetos de convívio, naturezas~mortas, animais, a paisagem que se vê da janela, interiores, costumes, retratos.



Rembrandt recusa-se a cumprir a limitação, mas não vende os quadros que a burguesia não entende e não encomenda. Não vende, por exemplo, seus auto-retratos, como não vende a pintura religiosa, cujo campo era restrito na Holanda do século XVII. A Descrença de São Tomé, A Aparição de Cristo no Horto, A Ressurreição, A Ceia em Emaús, Visão de Daniel, A Descida da Cruz são obras-primas que jamais conseguiu vender. É interessante constatar que Rembrandt demonstrou particular interesse, nesse campo, pelos episódios posteriores à morte de Cristo, só se conhecendo, porém - entre duas dezenas de trabalhos do gênero -, um Cristo Crucificado (descoberto em 1967, em Sevilha, e datado de 1660) e A Descida da Cruz. Também é importante destacar que a figura de Jesus sempre conserva os traços e a lembrança da morte.
Assim, no decorrer do tempo, perdeu a clientela; e, não havendo outro campo para um pintor, começou sua desgraça, que duraria centenas de anos. Por séculos afora, Rembrandt é relegado a um esquecimento incompreensível, desprezado, considerado pintor menor, pintor de moda. Fromentin, no livro Mestres de Outrora, editado em 1876, mal o considera.
Em 1645 toma como criada uma jovem, Hendrickje Stoffels, que passa a ser seu modelo - será Betsabé do Museu Louvre e Flora do Museu Metropolitano de Nova York - e sua amante. Vive com ela muitos anos, mas não se casa: uma cláusula no testamento de Saskia prevê que ele perderia tudo o que ganhou pelo matrimônio, se casasse de novo. E é justamente o dote da mulher que o sustenta, nesses anos de esquecimento, quando a clientela procura pintores mais acessíveis e menos inquietantes.
No dia 4 de dezembro de 1657 Rembrandt está arruinado: perde uma ação de cobrança na Justiça. Todos os credores correm a exigir também a sua parte. Primeiro vão os móveis a leilão; em seguida a coleção de objetos de arte; depois os seus quadros, muitos deles vendidos em lotes só para conseguir algum preço. É o caso do seu Auto-Retrato de Barba Nascente, vendido então com outros cinco auto-retratos, inclusive um dos primeiros, o Auto-Retrato Juvenil.
Em 1660 a municipalidade de Amsterdam procura um pintor que aceite a encomenda de um quadro histórico. Mas nenhum pintor se dispõe a enfrentar a tarefa, numa época em que se louva o presente e não mais se volta ao passado. Então é lembrado Rembrandt, que aceita transformar em pintura A Conspiração de Claudius Civilis, idealizado pelos líderes municipais. Claudius Civilis é um herói nacional: levantara-se contra o Imperador Vespasiano ainda no ano 70, e a cidade de Amsterdam quer comemorar sua vitória sobre os espanhóis através do heroísmo clássico dos guerreiros que souberam resistir ao Império Romano. Contudo,
quando o quadro - tão esperado - veio a ser exposto, o que o público viu foi um grupo de bárbaros, um bando de assassinos jurando fidelidade a um rei caolho. Não foram aqueles heróis imaginados pela fantasia, guerreiros cantados em prosa e verso que seguiram a liderança do grande Claudius. Para os orgulhosos burgueses que pretendiam identificar-se com os heróis, o choque não podia ser maior. O quadro foi devolvido. Só seria aceito com profundas modificações. Mas mesmo em sérias dificuldades de dinheiro, Rembrandt recusa a proposta e põe fogo no quadro. Arrependido, consegue salvar a cena central, hoje no Museu de Esto-
colmo; mas este é o golpe final no seu prestígio. Depois disso, só consegue vender mais um quadro: Os Síndicos da Corporação de Tecelões de Amsterdam, também chamado Os Negociantes de Tecidos.
Em 1663 morre a sua companheira, Hendrickje. Embora sozinho e esquecido, continua a pintar. Pinta sem descanso - nada mais lhe resta a fazer. Retrata os amigos, a família, pinta até paisagens e auto-retratos, que contam a sua história, o seu sofrimento, a sua luta, depois de tanta glória e riqueza, que ele gosta de lembrar. No Auto-Retrato de Barba Nascente, por exemplo, ele aparece em ricos trajes e com uma corrente de ouro. Seu filho, Tito, sustenta-o agora. E é também seu modelo. Faz dele vários retratos e transforma-o em São Mateus no quadro São Mateus e o Anjo, que está no Museu do Louvre.



Mas em 1668, então já casado, morre Tito, um mês depois de Rembrandt ter terrninado A Família de Tito. Sozinho, miserável, Rembrandt vive apenas mais um ano. Seu último Auto-Retrato é a mais extraordinária,
penetrante e impiedosa análise que um pintor fez de si mesmo: a pele envelhecida tem a mesma textura dos mortos das Lições de Anatomia, a figura tem o mesmo impacto dramático do seu Boi Esquartejado, a cor é profunda e cheia da dor da Descida da Cruz. É possível ver no seu rosto a morte de Saskia e dos meninos, o triste amor com Hendrickje e a sua morte, a morte de Tito, a luta contra a miséria e esquecimento total. Só o olhar triste mas insinuante lembra os auto-retratos da juventude, quando posava para si próprio como um herói.
Morre aos 63 anos, no dia 4 de outubro de 1669. No cavalete, deixou o último quadro, que não conseguiu terminar. Mostrava seu quarto: uma cama simples, uma cadeira quebrada, um espelho sem moldura, uma mesa rústica Hoje, após três séculos, é considerado um dos maiores pintores de todos os tempos.

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