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Inês de Castro

Inês de Castro

Por Antony C. Bezerra*

"Com respeito aos dramas de Inês, considero como tradição histórica não só o amor de perdição do herdeiro da coroa e o seu desenlace sangrento, mas também os seus reflexos de além-tumba."
(Carolina de MICHAËLIS)

"Agora é tarde, Inês é morta". Poucos são os que nunca ouviram ou mesmo disseram essas palavras. No entanto, poucos também são os que têm conhecimento da origem da frase. Quem é ‘essa’ Inês? Como ou quando morreu? Se, em nosso país, dúvidas é o que há quanto às mencionadas questões, no além-mar, mais precisamente, em terras lusitanas, não será português aquele que não souber tratar-se, Inês, de uma dama galega - Inês de Castro. Tem-se conhecimento, igualmente, de que foi o amor que a conduziu ao fim, à morte. Fato histórico notório no plano de Portugal, foi recuperado várias vezes em produções artísticas, literárias ou não, no plano luso ou não.

Antes de mais, bom que se saiba que verdade histórica e mito tendem a se confundir no imaginário advindo do episódio que envolve Inês de Castro e seu amante, o futuro rei de Portugal D. Pedro, filho de D. Afonso IV. É um dos não poucos momentos em que o mito (nas palavras de Fernando PESSOA, "o nada que é tudo") assume ares de fato. Se se levar em conta que a raiz da História, em seus relatos inicialmente orais e depois escritos, reside nos mitos, parece mais natural que surpreendente a forma como é encarada a história de amor e morte de uma mulher que, por seus encantos, teve uma imerecida ruína.
Está-se em meados do século XIV, em Portugal, e D. Afonso IV, antepenúltimo rei da dinastia de Borgonha, é o soberano que comanda o país. O momento histórico não é despido de tensões. Sua própria ascensão ao trono é problemática. Sabedor de que seu pai, D. Dinis, tinha o propósito de alçar à condição de rei o filho bastardo Afonso Sanches, o infante desencadeia uma guerra civil que se estenderia de 1320 a 1324. Entre 1336 e 1338, já rei, D. Afonso IV tem de conviver com guerras entre as duas nações ibéricas. Logo depois, em 1340, em decorrência dos avanços marroquinos sobre a península, unem-se Portugal e Espanha para impedir uma das últimas investidas mouras sobre a região européia. A Batalha do Salado, desairosa para os sarracenos, marca a afirmação da posse luso-hispânica sobre o seu próprio território.


D Pedro I

Durante o período, surge um fato que, tendo um papel de segunda plana no que diz respeito a questões de natureza política, acaba por causar grande comoção nacional. De certa forma (e como observa Haquira OSAKABE), materializa um sentimento que, extensivamente, irá caracterizar o espírito lusitano: a saudade, aflorada pelo sacrifício de Inês de Castro.
Nascida em Monforte, no ano de 1325, Inês de Castro era filha bastarda de um notável cavaleiro galego (primo, inclusive, de D. Pedro), Pedro Fernández de Castro, com a portuguesa Aldonza Suárez de Valladares. Em 1340, segue a Portugal no séquito de D. Constança Manoel, prometida do herdeiro do trono lusitano. O infante, sempre insatisfeito com as uniões matrimoniais que lhe eram impostas, dispensara a primeira noiva quando esta contava apenas 14 anos, de fraca que era. Do compromisso com Constança, entretanto, não houve como evadir-se. Casaram-se, mas desde cedo o nobre lusitano deixou-se levar pelos encantos de uma dama (sua prima em segundo grau) loira e de olhos verdes - precisamente, Inês de Castro. Refratário a uniões arranjadas, D. Pedro desejava mesmo compartilhar sua existência com Inês, situação, a princípio, impedida pela condição de ambos.
Ainda casado, já Pedro travava relações amorosas com Inês (e, por isso, condenáveis). O infante, mais que insatisfeito com o casamento, abandonava a mulher à própria sorte (dias de caça, longe de casa, era o que havia), o que a ele valiam muitas críticas do rei, seu pai. Para contornar a constrangedora situação, acabou, Inês de Castro, por ser convidada para madrinha de Fernando, primogênito do casal Pedro e Constança e futuro comandante dos destinos portugueses. De nada adiantou. Como medida extrema, D. Afonso IV forçou Inês ao exílio, e esta veio a se alojar no castelo de Albuquerque, Espanha, próximo à raia alentejana. Eis que, em 1354*, morre Dona Constança ao dar à luz o terceiro filho. Abriu-se, então, o caminho para que os amantes passassem a viver um na companhia do outro. E foi, de fato, o que se sucedeu: D. Pedro mandou vir da Espanha a sua amada. Passaram a morar - ora juntos, ora separados - em Lourinhã e em Moledo.
Tudo eram rosas, até que o rei e seus conselheiros - bem como considerável parcela dos vassalos - passaram a ver perigo nos laços amorosos entre os o infante e a dama galega. A razão? Os dois irmãos da bela Inês - Álvaro Pires de Castro e Fernando de Castro -, cujos anseios pelo poder amedrontavam os portugueses, para os quais era incogitável retornar ao jugo castelhano. Foram responsáveis, inclusive, por que D. Pedro se envolvesse em questões castelhanas, o que, segundo D. Afonso IV, poderia abalar a independência lusitana.
O quadro português, já tenso, sofre um duro golpe com a proliferação da peste negra (em 1348 a 1349). D. Fernando, filho legítimo de Dona Constança e de D. Pedro , vê a sucessão ao trono ameaçada pelos bastardos de Inês. A insatisfação se espraia pelo reino. Culpados para um tal panorama deviam ser encontrados - e, de fato, encontrou-se: Inês de Castro. Incentivado por três de seus conselheiros - Pedro Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco -, D. Afonso IV toma uma medida extrema: decide pela morte da amante do filho.
Os primeiros dias do ano de 1355 são utilizados pelo rei e por seus conselheiros para discutir a melhor forma de pôr os seus macabros intentos em prática. No dia 7 de janeiro, partem, o rei e gente sua, em direção a Coimbra, com o fito de tirar a vida da que ameaçava a estabilidade do reino de Portugal. Em vão foram os apelos de Inês em benefício próprio e de seus três filhos (entre eles, aquele que seria o inaugurador da Casa de Avis, D. João I). Embora, conforme reza o mito, tenha, o soberano, vacilado quanto a matar ou não Inês, foi degolada aquela que tão cara era ao infante D. Pedro. De imediato, o corpo da vítima foi trasladado para a igreja de Santa Clara.


Inês de Castro suplica clemência aos seus algozes

A reação do novamente viúvo não poderia ser senão de revolta. Unido aos Castro e com um exército considerável, partiu com um desejo mortal de vingança sobre o império paterno, chegando mesmo a impor um cerco à cidade do Porto. Por intervenção a rainha Beatriz, mãe de Pedro, pai e filho acabaram por assinar a paz. Mas o infante ainda tinha ânsias de fazer com que se pagasse pelo mal cometido.
Quando, em 1357, morre D. Afonso IV, e D. Pedro I passa a comandar os destinos de Portugal, tem, como um de seus primeiros atos, demandar a extradição, para seu país, dos responsáveis pela morte da bela Inês. E assim foi. Devido a um tratado estabelecido com Pedro, o Cru, rei de Castela (onde estavam os algozes), dois dos assassinos - Pedro Coelho e Álvaro Gonçalves - vão enfrentar o seu fatum na terra natal. Não se sabe ao certo, mas, novamente segundo o mito, um deles teve o coração arrancado pela frente, e o outro, por trás. Longe de dúvidas mesmo está que o terceiro procurado, Diogo Lopes Pacheco, acabou por fugir para terras francesas.
Depois desses fatos, os relatos que há em torno das atitudes de D. Pedro I tanto podem soar a verdade como a implausibilidade. Veras são a trasladação do corpo de Inês de Santa Clara a uma bela lápide construída no Mosteiro de Alcobaça (em 1361) e a declaração da morta como rainha (D. Pedro I revelara, em 1360, ter-se casado secretamente com ela). Comprovadas ainda são a bela estátua sepulcral que se mandou erguer em homenagem à rainha, bem como as grandiosas exéquias promovidas pela ocasião do transporte do corpo. No entanto, a lenda também se faz presente. Conta-se que Pedro teria promovido o beija-mão e o coroamento ao cadáver de Inês de Castro. Diz-se ainda que o soberano tivera o cuidado, ao dispor o seu túmulo e o de sua amada no referido mosteiro, de postar as lápides não lado a lado, mas pé com pé. Para quê? Quando tivessem, ambos, de se acordar no juízo final, poderiam um olhar nos olhos do outro. O oitavo rei de Portugal, motivado pelos fortes sentimentos que o uniam a sua amada, agiria, de acordo com as palavras do historiador Fernão LOPES, motivado por um "grande desvairo".


Túmulo de Inês de Castro

Tal foi a comoção nacional despertada pelos acontecimentos - e pela aura de mito que em torno deles se criou - que não passaria, a história de amor entre D. Pedro I e Inês de Castro, incólume na produção artística, seja de Portugal, seja mesmo de outras nações européias. De acordo com o historiador contemporâneo José Hermano SARAIVA, mais de 120 composições musicais foram elaboradas, somente na Itália, tendo por tema o caso de amor. Em França, Henry de MONTHERLAND compôs a peça teatral La Reine Morte; na Espanha, Amor, Corona y Muerte foi o título que Alejandro CASONA deu a sua peça inesiana. Mas foi na pátria do ocorrido, como não poderia deixar de ser, que as obras literárias acerca do tema proliferaram, promovendo-se enfoques que não podiam senão ecoar de forma profunda a alma lusitana.

Os primeiros textos de que se tem notícia a enfocar o drama do "Romeu e Julieta português" (nas palavras de Alexandra MARTINS) são de Fernão LOPES (1380?-1460?), cronista que conduz a historiografia lusitana a novas perspectivas, ao filtrar as lendas dos fatos. Ansiava por "escrever verdade, sem outra mistura." Supõe-se que suas crônicas [1] abarcassem do primeiro rei de Portugal (D. Afonso Henriques) até o momento histórico vivido pelo autor. No entanto, apenas três desses textos resistiram ao tempo, a saber: Crônica de D. Pedro, Crônica de D. Fernando e Crônica de D. João I. É precisamente a primeira aquela que relata a história de Inês. Serviu-se, LOPES, de historiadores da época do acontecido e de documentos que ao tempo do historiador chegaram.
Outros historiadores do Humanismo lusitano também se ocuparam da temática, como foi o caso de Rui de PINA (1440-1552) e Cristóvão Rodrigues ACENHEIRO (1474-1536?), que, sobre a reconciliação entre D. Afonso IV e o inconsolável filho, escreveu: "E vendo os povos de Portugal os estragos da terra disseram que se conviessem, se não os que não podiam sofrer."


Frontispício de Cancioneiro Geral

Em termos propriamente literários - pensando-se em obras pautadas num fim estético -, é nas "Trovas à Morte de D. Inês de Castro" que o desaparecimento da amante do infante tem seu debute. Redigidas por Garcia de RESENDE (1470?-1536), a composição é publicada no Cancioneiro Geral (1516), obra coligida pelo mesmo autor. É uma recolha de textos líricos, lírico-narrativos e lírico-dramáticos produzidos no âmbito do paço, a chamada poesia palaciana. A composição de RESENDE tende a fundir várias referências literárias, desde elementos da cultura clássica até práticas eminentemente medievais, como no momento em que o eu-lírico se dirige à audiência. O alçar-se à condição de heroína uma figura histórica é uma das inovações mais significativas que o poeta operou. Seguem três estrofes das trovas. Na primeira, fala Inês, já cumprido o seu destino. Na segunda, um de seus algozes, cavaleiro de D. Afonso IV, detém a voz. A derradeira, emitida pelo eu-lírico, é o desfecho do poema.

"Qual será o coração,
tão cru e sem piedade,
que lhe não cause paixão
ua tão grã crueldade
e morte tão sem razão?
Triste de mim, inocente,
que por ter muito fervente
lealdade, fé, amor,
ó príncipe, meu senhor,
me mataram cruamente."

[...]

"‘Com sua morte escusareis
muitas mortes, muitos danos;
vós, senhor, descansareis,
e a vós e a nós dareis
paz para duzentos anos:
o príncipe casará,
filhos de bênção terá,
será fora de pecado.
Qu’agora seja anojado,
amanhã lh’esquecerá!’"

[...]

"Em todos os seus testemunhos
a declarou por mulher,
e por s’isto melhor crer,
fez dois ricos moimentos,
em qu’ambos vereis jazer
rei, rainha, coroados,
mui juntos, não apartados,
no cruzeiro d’Alcobaça.
Quem puder fazer bem, faça,
pois por bem se dão tais grados.

Se Garcia de RESENDE promoveu a estréia de Inês no plano literário, é Luís de CAMÕES (1525?-1580), a grande referência da poesia lusitana ao lado de Fernando PESSOA, que se responsabiliza por consagrar a temática. Em Os Lusíadas, grande épico do povo português, o autor inclui o episódio de Inês de Castro (que, longe de catalisar a ação, mostra-se complementar à história das conquistas lusitanas). Eis uma estância (das 18 que há) a enfocar a temática. Está no Canto III de Os Lusíadas.

"Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co sangue só da morte indina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina,
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra hua fraca dama delicada?"


Imagem Antonio Ferreira

Contemporâneo de CAMÕES e classicista como este, António FERREIRA (1528-1569) compõe a Tragédia de D. Inês de Castro, drama que, sem abrir mão da estrutura clássica, contempla um fato histórico de Portugal. Trata-se, um tal comportamento, de uma renovação do gênero, uma vez que se deixa de lado a mera imitação aos modelos da Antigüidade. A obra de FERREIRA é relevante, ainda, por conferir humanidade às personagens, que longe estão de ser indivíduos de comportamento linear. O trecho a seguir mostra Inês a pedir clemência ao soberano D. Afonso IV. Foi extraído do IV Ato.

"INÊS - Meu senhor,
Esta é a mãe de teus netos. Estes são
Filhos daquele filho, que tanto amas.
Esta é aquela coitada mulher fraca,
Contra quem vens armado de crueza.
Aqui me tens. Bastava teu mandado
Para eu segura e livre t’esperar,
Em ti e em minh’inocência confiada.
Escusarás, Senhor, todo este estrondo
D’armas e cavaleiros; que não foge,
Nem se teme a inocência da justiça."


Imagem Antonio Patrício

Durante o período romântico (século XIX), há autores que, embalados pela recuperação do passado nacional, ocupam-se da história da mulher que foi rainha depois de morta. Adepto de ideais simbolistas e saudosistas, António PATRÍCIO (1878-1930) será autor do poema dramático Pedro o Cru, que não despreza o episódio de D. Inês de Castro. Ainda no plano do Saudosismo (movimento nacionalista que, associado à Renascença Portuguesa, algumas relações manteria com o Modernismo lusitano), destacou-se a figura de Teixeira de PASCOAES (1877-1952) a ocupar-se do tema da morte de Inês. A faceta místico-histórica de Fernando PESSOA (1888-1935), mais que natural, não despreza a temática, bem como farão Jaime CORTESÃO (1884-1960) e Ângelo LIMA (1872-1921), autor do poema "Inês de Castro".
No plano da segunda metade do século XX, cabe destaque à poetisa Fiama Hasse Pais BRANDÃO (1938-), com o seu "Inês de Manto", vindo a lume em 1971. É o adorno daquela que, só após morrer, é reverenciada como merece.

"O vestido dado
como a choravam
era de brocado
não era de escarlata

Também de pranto
e vestiram toda
era como um manto
mais fino que roupa"

Num tempo mais próximo da atualidade - o que só vem a demonstrar a transtemporalidade da temática de Inês de Castro -, Augustina BESSA-LUÍS (1922-) publica asAdivinhas de Pedro e Inês, de 1986. Num texto que transita entre o literário, o histórico e o biográfico, a autora enfoca o rei D. Pedro I, com referências contínuas, claro está, ao enlace amoroso do soberano com a dama galega. O trecho a seguir mostra João das Regras, personagem histórica, a comentar o suposto casamento entre o infante e a sua amante.

"Mas quanto a D. Pedro ter casado, nunca tive dúvidas; tive só escrúpulos em o afirmar, mas não dúvidas... Eu não provei nada. Limitei-me a calar as bocas, que a política não se faz com murmúrios. [...] Há uma regra que ainda aplico: apoio a tua causa nos modelos estereotipados da opinião popular."

Objeto de considerável produção artística, Inês de Castro parece não ter morrido em vão. Se não para manter airosos os destinos de Portugal, como ansiavam os seus algozes, ao menos para, fenecendo, eternizar-se como a representação deste sentimento tão português que é a saudade. Nesse processo, a mitificação é capital, e redefine os conceitos de realidade e verosimilhança quando se depara com a obra literária, capaz de reunir todos os discursos num só.

NOTA
[1] Crônica, no sentido que aqui se apresenta, é o relato de acontecimentos sob uma ordenação cronológica.


Antony C. Bezerra é colaborador do HISTORIANET.
Mestre e doutorando em Teoria da literatura pela Universidade Federal de Pernambuco; Professor de Literatura portuguesa e de Literatura da língua inglesa na Universidade Salgado de Oliveira, em Recife.

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