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Guerra, Política e Entretenimento

GUERRA, POLÍTICA E ENTRETENIMENTO

Luiz Bernardo Pericás

Mais uma vez, pudemos ver o retorno da histórica propensão dos Estados Unidos ao entreterimento e à guerra. Ou melhor: à personalização da guerra. Dois dos mais importantes setores da economia norte-americana novamente são protagonistas de uma época de crise: a indústria bélica e a da "diversão". Os militares e o atual governo republicano, juntamente com revistas, jornais, televisão e cinema, novamente deram o tom dos acontecimentos, censuraram informações e transformaram a invasão do Iraque num espetáculo.
É bom recordar que no começo do século XX, durante os sangrentos eventos da revolução mexicana, por exemplo, o público, a imprensa e o governo norte-americanos precisavam de imagens e personagens com os quais pudessem se identificar e com isso, sentir-se mais próximos dos campos de batalha, não só para justificar apoios e intervenções dentro daquele país, como também para ganhar dinheiro. Assim, no dia 3 de janeiro de 1914, o já legendário revolucionário Pancho Villa, assinou um contrato de exclusividade no valor de US$ 25 mil com a Mutual Film Corporation para estrelar como protagonista de suas próprias batalhas no norte do México. De acordo com o contrato, Villa deveria empreender os combates somente durante o dia, já que a luminosidade favoreceria as filmagens em campo aberto. Quaisquer outros cinegrafistas seriam proibidos de registrar os acontecimentos. Se por acaso as imagens reais não fossem suficientes, o líder da "Divisão do Norte" se comprometeria a "encenar" batalhas, para que fossem incluídas mais tardes nos filmes da Mutual. Há quem diga que os representantes da empresa cinematográfica norte-americana chegaram ao ponto de pedir a Villa que adiasse as execuções de inimigos e traidores das cinco para as sete horas da manhã, já que nesse horário haveria mais luz para as filmagens.
Naquele mesmo ano, estreava em Nova Iorque A vida de Pancho Villa, com atores interpretando o jovem revolucionário e com o próprio Villa aparecendo em diversas cenas. Um livreto, que era entregue ao público, contava a vida daquele homem, mostrando as injustiças perpetradas contra ele desde a infância até suas mais "heróicas" batalhas. A audiência ficava fascinada, tentava entender a guerra e gastava seu dinheiro…
As notícias na imprensa não tardaram em chegar. De acordo com o Army & Navy Journal, Pancho Villa não só era um "gênio militar" como também possuía uma "admirável personalidade". O presidente Woodrow Wilson chegou a dizer que Villa era "o maior mexicano de sua geração", enquanto o "Centauro do Norte" elogiava o governante norte-americano, a quem chamava de "sábio". Villa, até onde podia, respondia favoravelmente à maioria das solicitações do enviado oficial de Washington, George Carother, enquanto, ao mesmo tempo, mantinha amizade com general Hugh Scott, responsável pelo comando da fronteira entre os dois países. Ou seja, havia um acordo tácito entre ambas as partes, que usavam umas às outras para atingir seus objetivos.
Até então, Villa era admirado pelo público e governo dos Estados Unidos, já que servia a seus interesses. Mas depois as coisas mudaram. O resto da história é conhecida. Derrotas militares, deserções de aliados, traições, problemas financeiros e acusações de "atrocidades" foram diminuindo o prestígio de Villa perante o governo norte-americano, que se declarou "desiludido" com ele. Os Estados Unidos reconheceram o governo de Carranza e começaram, então, a considerar Villa um bandido.
Com desejo de vingança e temerosos que sua terra pudesse se tornar um protetorado norte-americano, Villa e suas tropas, em 1916, atravessam a fronteira, atacam a cidadezinha de Columbus, arrasam tudo que vêem pela frente, pilham, saqueiam, destroem o local e em seguida fogem de volta ao México. Aquela havia sido a primeira e única invasão do território dos Estados Unidos no século XX, uma humilhação, uma derrota contundente para norte-americanos, um absurdo que eles não poderiam aceitar, um ataque que eles não estavam esperando e que enfureceu o governo. Por causa disso, foi enviada uma expedição "punitiva" ao México, liderada pelo general John Pershing, que atravessou a fronteira e "caçou" Villa por milhares de quilômetros dentro do país.
As informações eram contraditórias. Por algum tempo não se ouviu mais falar de Villa. Começaram a circular notícias de que já não estaria mais vivo. Outras fontes diziam que estaria ferido ou escondido. O fato é que Pershing nunca conseguiu encontrar o revolucionário…
E então, quase um século mais tarde, os Estados Unidos são novamente "atacados" dentro de seu território. Após os eventos de 11 de setembro, era necessário encontrar um culpado. O principal candidato era Osama Bin-laden, durante muitos anos elogiado e respaldado pelos Estados Unidos, que necessitavam de sua "ajuda" no combate às tropas soviéticas no Afeganistão. Mas, da mesma forma que anteriormente ele havia sido considerado um "amigo", agora se tornara o pior dos terroristas, que deveria ser eliminado a qualquer custo. Uma guerra, portanto, seria necessária. Como não existiam inimigos clássicos, se "personalizou" novamente o conflito. O povo do Afeganistão era "bom", de acordo com o governo Bush, mas seria necessário arrasar seu território para que se pudesse "caçar" Osama e seus aceclas. Uma expedição punitiva mais uma vez foi organizada, invadiu um país estrangeiro e procurou, sem sucesso até o momento, aquele que era considerado o pior inimigo da "América". A indústria bélica recebeu maiores fatias do orçamento e pedidos das forças armadas, enquanto a mídia transformou tudo num grande show. Mas a guerra durou pouco e seria necessário criar outro conflito para novamente aquecer a já debilitada economia norte-americana. A indústria militar e a grande mídia novamente sairíam ganhando nesta estória…
O alvo agora seria o Iraque de Saddam Hussein. Para os Estados Unidos, o povo iraquiano era "bom", mas era liderado pelo "louco", "fanático" e "perigoso" Saddam Hussein. Não custa recordar que anos antes, Hussein havia sido o escolhido da "América" para salvaguardar seus interesses no Oriente Médio, um importante aliado na região. Para os norte-americanos, ele poderia ser uma contenção aos desígnios dos supostos "fanáticos" religiosos do Irã. Por isso, entupiram o país com armas convencionais, biológicas e químicas, enviaram ajuda financeira e apoiaram politicamente a Saddam. As imagens de Donald Rumsfeld apertando fervorosamente a mão de Hussein numa visita oficial anos atrás ainda estão na memória…
Mas agora Hussein se transformaria na personalização da maldade e na justificativa de uma guerra. Alguns jornalistas e analistas políticos têm afirmado recentemente que o homem por trás de Bush, e principal ideólogo e articulador das atuais políticas agressivas dos Estados Unidos é Karl Rove, que acompanha o presidente há quase vinte anos e é seu principal conselheiro. Rove, aos 53 anos de idade, não tem nenhum título universitário, apesar de ter feito cursos em distintas universidades. Foi diretor-executivo do Comitê Nacional do Partido Republicano nos anos 1970, ajudou Bush a se eleger governador do Texas nos anos 1990, assim como conseguiu o apoio de uma grande quantidade de investidores para que o mesmo Bush ganhasse as eleições e se tornasse presidente dos Estados Unidos. O próprio Rove teria sido o responsável pela escolha de Saddam como inimigo da "América". Como Osama havia escapado, seria importante colocar alguém em seu lugar. Após uma noite analisando a situação, ele encontrou a solução. Saddam estava no Iraque, seria fácil de capturar. Isso justificaria uma intervenção e esconderia os verdadeiros motivos para enviar tropas àquele país, ou seja, ampliar a influência política e militar na região, redesenhar o mapa geopolítico do Oriente Médio, manter bases estratégicas em diversas partes do planeta, garantir as reservas de petróleo, mandar uma "mensagem" a países que não quisessem cooperar, distribuir contratos de reconstrução do Iraque para empresas norte-americanas, manter a popularidade interna do presidente, garantir uma vitória nas próximas eleições, desviar a atenção pública da crise financeira, aumentar os gastos militares e manter os Estados Unidos numa posição de única superpotência econômica e militar no mundo.
Assim, transgredindo o bom senso, as resoluções da ONU e toda a ordem jurídica internacional, o governo conservador de George Bush decidiu praticamente unilateralmente enviar tropas "punitivas" para novamente "caçar" um indivíduo. Para os estrategistas da atual administração republicana os países são apenas mapas, desenhos, traços no papel. Eles aparentemente não se dão conta de que dentro dos territórios há povos, história, cultura e complicadas relações políticas, religiosas e sociais… Logo após atacarem o Iraque de forma extremamente agressiva, se surpreenderam com a reação da população local e sua tentativa desesperada de defender sua soberania…
Novamente a fatia do orçamento para o setor de segurança e forças armadas aumentou substancialmente, uma tentativa clássica de reaquecer a economia do país através de um conflito armado. E a mídia não perdeu tempo. Os programas televisivos apresentavam a guerra como um filme, as tropas ianques como caubóis bondosos prontos a salvar aquele miserável povo árabe. A destruição de cidades e massacre da população foram deixados de lado, e o suposto motivo real para a guerra -a busca de armas de destruição em massa-, foi esquecido e substituído pela "caça" a Saddam. As redes de televisão, praticamente porta-vozes do governo, censuraram imagens e informações e apresentaram a guerra como um filme de Hollywood, onde os heróis são sempre os próprios norte-americanos, que têm, como missão, salvar os outros povos da Terra, mesmo que isso vá contra sua vontade. Ao que tudo indica, já há planos para a realização de um filme sobre o resgate da prisioneira de guerra Jessica Lynch, de 19 anos, pelas tropas de seu país. Outros filmes, seriados e documentários possivelmente seguirão esta tendência. A loucura mercadológica chega a tal ponto que já se planeja produzir inclusive um boneco sonoro do ministro da Informação do Iraque, Mohamed Said Al Sajaf, famoso por suas declarações excêntricas e que se tornou um ídolo cult para uma boa parte do público ocidental que assistiu a guerra pela televisão.
A guerra praticamente terminou, o Iraque está arrasado e Hussein ainda não foi encontrado. Uma estória parecida com outras que já comentamos. A questão agora é saber quem será o próximo inimigo que os Estados Unidos irão criar para justificar outro conflito. A lista é extensa e muitos são os candidatos. Mas isso, só o tempo dirá.

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