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Américo Vespúcio

AMÉRICO VESPÚCIO E SEU OLHAR SOBRE O BRASIL


Após a "descoberta" do Brasil feita por Pedro Álvares Cabral em 1500, o rei de Portugal, D. Manuel I decide averiguar quais as riquezas existentes naquele imenso território tão bem relatado por Pero Vaz de Caminha, participante da expedição cabralina.

Porém, Américo Vespúcio contribuiu significativamente com preciosos registros, realizados por meio de sua primeira viagem ao Brasil, comandada por Gonçalo Coelho que partiu de Lisboa em 10 de maio de 1501. Com isto, a Coroa portuguesa pode ter notícias pioneiras sobre o contato de Cabral e também sobre seus direitos sobre terras brasileiras, conforme relato:

... graças à investigação de Vespúcio, foram obtidas as primeiríssimas informações sobre o contato por Cabral numa latitude muito ao sul dos pontos descobertos pelos espanhóis, abrindo-se, portanto, a hipótese da existência de novas terras firmes que, segundo o Tratado de Tordesilhas, deveriam pertencer a Portugal.

O banqueiro Bartolomeu Marchionni, que anteriormente ajudou a financiar a esquadra de Cabral, talvez tenha sido o recomendador de Vespúcio à Coroa, Bartolomeu era amigo de Américo Vespúcio.

Nascido em 09 de março de 1454, Américo Vespúcio sempre viveu em meio a um alto estilo de vida, filho de família abastada achegados aos poderosos Médici, que construíram Veneza, política e financeiramente.

Por 20 anos Américo Vespúcio executou trabalhos burocráticos, conhecendo homens importantes e poderosos, como Luiz XII, trabalhando no Banco da família Médici.

Após este feito, em 1491 Vespúcio dirige-se à Espanha para trabalhar com Juanoto Berardi, sócio dos Médici. Juanoto era um dos principais financiadores da empresa marítima espanhola, comandada pelos "Reis Católicos". Alguns afirmam ter sido ele o colaborador para a expedição de Cristóvão Colombo quando este descobriu a América em 1492.

De qualquer modo, Vespúcio passou a conviver de perto com os empreendimentos marítimos, e, aos 45 anos decide-se "ganhar o mar", realizando seu próprio ideal. Américo Vespúcio sempre desejou ficar famoso após sua morte, nunca escondeu tal vontade, em 1498 ele, depois da morte de Juanoto Berardi, tornou-se amigo e financiador de Colombo, pois ele tinha de entregar as 12 embarcações encomendadas anteriormente, pelos reis a Berardi que faleceu em 1495.
Em 1498 também foi o ano em que ocorreu a 3ª viagem de Colombo rumo à América, agora na parte sul. O desejo por aventuras por parte de Vespúcio viria com sua primeira vagem, sob comando de Alonso de Hojeda, zarpando de Cádiz em 18 de maio de 1499, tal parceria não obtivera sucesso, Vespúcio separou-se de Hojeda voltando para Espanha em junho de 1500, aproximadamente 01 mês antes do planejado.

D. Manuel I, contrata Vespúcio, a admiração da parte do rei de Portugal em relação a este homem culto iniciara com a leitura que o rei realizou de uma carta escrita em 18 de julho de 1500 de Vespúcio destinada a seu patrão Lourenzo de Médici. Neste documento havia os detalhes da viagem de Vespúcio com Hojeda. Entretanto, Américo Vespúcio omitiu o nome de Hojeda (quem comandou a viagem), colocou-se em seu lugar como verdadeiro comandante. D. Manuel I provavelmente recebeu uma cópia desta carta por meio do banqueiro Bartolomeu Marchionni, desde então, houve interesse em contratar os serviços de Vespúcio. Outro fator que reforçava tal atitude do rei devia-se a falta de navegares experientes naquela época, todos estavam ocupados com outras expedições em mar, e Bartolomeu Dias, um dos mais importantes navegadores, estava morto, porém, sem que o rei soubesse.

Após seu primeiro e breve contato com D. Manuel I, ocorrido em fevereiro de 1500, Américo Vespúcio, em uma esquadra comandada por Gonçalo Dias, zarpou ruma às Canárias, logo após resolveram parar em Bezeguiche, localizado a frente do Cabo Verde, onde então houve um momento de coincidências com embarcações, também ali paradas, pertencentes à esquadra de Pedro Álvares Cabral e Diogo Dias, este memorável encontro gerou a certeza, por parte dos comandantes e do próprio Vespúcio de que estavam percorrendo um novo continente, um "novo mundo", diferentemente da afirmação de Colombo em 1492.

A fidelidade de Vespúcio à família Médici

Segundo Eduardo Bueno, Vespúcio estava pouco preocupado com as disposições geográficas que acabara de participar, seu interesse estava voltado para rota das especiarias tão cobiçada das Índias. Nesta sua parada em Bezeguiche, Américo Vespúcio pode colher preciosas informações a respeito do rico comércio de especiarias.

Mostrando lealdade a seu original patrão, Lorenzo de Médici, Vespúcio revelou as informações importantes colhidas com Gaspar da Gama, (que foi capturado em 1498 por um dos homens de Vasco da Gama), Gaspar adotou o nome de seu padrinho, e em 1500 fez parte da esquadra de Cabral como intérprete.

O contato de Américo Vespúcio com Gaspar resultou na elaboração, por parte do novo aventureiro, de uma carta de aproximadamente 10 páginas, a qual foi destinada a Lorenzo de Médici, datando-a de 14 de junho de 1501. Em 15 de junho Vespúcio segue rumo ao Brasil, sob comando de Gonçalo Coelho, a esquadra era formada por três caravelas. De acordo com Ricardo Fontana, um dedicado estudioso do assunto, a partir deste momento, o desejo de novas aventuras começara efetivamente para Américo Vespúcio, pilotando uma das embarcações da esquadra..

O primeiro contato com o Brasil

Em agosto de 1501 as 03 caravelas da esquadra ancoram na Praia de Marcos, litoral do atual Rio Grande do Norte. O primeiro contato dos marujos com os nativos do Brasil aconteceu somente após o primeiro dia já em terra firme. Contato este que, na verdade, foi desprezado por parte dos nativos que ignoraram todas as quinquilharias, oferecidas pelos homens de Gonçalo Coelho.

A antropofagia dos nativos brasileiros

Gonçalo Coelho concordou em deixar dois cristãos de sua esquadra ir averiguar os nativos por um prazo de 05 dias, visto que não houve uma recepção muito amistosa por parte dos nativos, passados estes dias, exatamente ao 6º dia os cristãos haviam desaparecidos, a esquadra estava prestes a deixar o litoral, Coelho e Vespúcio junto de alguns marujos decidem procurar saber o que houve, foi quando apareceram várias mulheres nativas, sendo que uma delas golpeou um dos homens da esquadra na cabeça, enquanto outras atacaram o restante com flechas.

Dois disparos foram dados pelos homens de Gonçalo, com intuito de eliminar o ataque, os nativos correram para um monte alto, levando arrastado um dos marujos, os viajantes seguiram-nos e depararam com um cenário de impacto, o marujo capturado estava em pedaços, parte de seu corpo estava sendo cozinhado em um tipo de caldeirão grande, e outras partes do corpo já sendo mastigadas pelos nativos. O destino dos outros dois cristãos desaparecidos, com certeza fora o mesmo.

Diante de tais acontecimentos, Vespúcio narra em sua carta denominada Lettera, o primeiro caso de antropofagia dos nativos da América, incluindo os europeus como vítimas. Tal registro ganhou estrondoso sucesso de publicação, pois esta carta fora enviada a seu amigo Piero Soderini, um dos principais mandatários de Florença. Os comandantes ficaram indignados com os acontecimentos, mas Gonçalo Coelho achou melhor zarpar imediatamente do local, contornando o litoral do Brasil.

Vespúcio atribui nomes ao litoral brasileiro por onde passou

Munidos de um calendário Litúrgico, começaram a batizar os lugares onde atracavam, com nome de santos do respectivo dia em cada lugar diferente, como por exemplo, em 28 de agosto com a vista do Cabo de Santo Agostinho, em 01 de novembro de 1501 à baía, denominada Baia de Todos os Santos. Após a parada em Cabrália, Gonçalo Coelho depara-se com dois degredados advindos da esquadra de Cabral, resgata-os. Entre estes estava Afonso Ribeiro, que permaneceu por dois anos em contato direto com os nativos, aprendendo seus costumes e suas atividades cotidianas, Vespúcio não perdeu tempo em colher preciosas informações com Ribeiro a respeito desta convivência com os nativos, tais informações foram suficientes para Américo Vespúcio escrever duas novas cartas, em uma delas, ele registra que conseguiram, na Baia batizada de Todos os Santos, descansar e realizar um contato amistoso com os nativos, Vespúcio relata que durante sua permanência neste local havia comido e dormido durante 27 dias com os naturais da terra. A frota de Coelho avançava sentido sul. Uma nova parada, no inicio de dezembro em Porto Seguro, onde os marujos recolheram algumas toras de pau -- brasil, árvore que teria responsabilidade de doar seu nome ao futuro daquele território. Em 01 de janeiro de 1502 a frota depara-se com uma paisagem paradisíaca, a chamada "boca do mar", cercada por montanhas arborizadas, os tripulantes pensavam estar mediante a foz de um rio, batizando o local com o nome de Rio de Janeiro. Vespúcio, cerca de 01 ano depois, em sua segunda viagem ao Brasil, voltaria a tal lugar, que o deixou profundamente extasiado diante de tanta beleza. Alguns dias depois, Vespúcio avistaria outra beleza natural, uma bela enseada, era 06 de janeiro de 1502, dia de Reis, então batizara tal lugar de Angra dos Reis, nome que até hoje se mantém. Américo Vespúcio ficou mais uma vez impressionado em meio a tanta beleza, conforme diz seu relato: Algumas vezes me extasiei com os odores das arvores e das flores e com os sabores destas frutas e raízes, tanto que pensava comigo estar perto do Paraíso Terrestre. Entre fins de janeiro a esquadra batizou outra região, uma ilha de águas calmas, chamando-a de Cananéia, deixando, não se sabe ao certo porque, de utilizar o nome de um santo, como feito até então. Na metade do mês de fevereiro a frota deixa a ilha, munidos com suprimentos suficientes para 06 meses de viagem, foram 49 dias de mar à dentro, sem avistar terra.

Os primeiros dias de abril foram apreensivos, segundo Vespúcio, em 06 de abril ocorrera um longo período de escuridão em pleno mar, após terem atravessado forte tempestade, agora o frio era também um grande inimigo, Américo Vespúcio relata que não suportavam os ventos gelados e afiados, em meio a muito nevoeiro. Diante disto, decidiram regressar a Portugal, depois de navegar por um mês, atracaram em Serra Leoa (África), quando perderam uma das três caravelas, devido a uma epidemia de carunchos, comprometendo uma das embarcações. Depois de 15 dias no continente africano partiram rumo a Lisboa chegando em 22 de julho de 1502. Foram 14 meses de viagem, porém, não trouxeram qualquer notícia sobre a existência de riquezas do território descoberto por Cabral.

Segundo Bueno, Américo Vespúcio, ao manter contato com parte da frota de Cabral que estava atracada em Bezaguiche, ficou profundamente interessado a rota do comercio de especiarias das Índias, tanto que escreveu para Lourenzo de Médici, informações a respeito. Para Fontana, Vespúcio foi utilizado pela Coroa portuguesa, visto que possuía muito conhecimento cientifico, com intuito de garantir a posse e também ter uma idéia mais visível das disposições das terras que Pedro Alvarez Cabral havia "descoberto" em abril de 1500.

Ricardo Fontana, afirma que graças aos registros de Américo Vespúcio, a Coroa portuguesa pode contar com um aval científico quanto à posse jurídico política de Portugal sobre a terra de Vera Cruz. Segundo o autor, este era um dos principais objetivos da primeira viagem de Vespúcio, os dados que ele pode colher iam de encontro exatamente com as descrições de Pero Vez de Caminha quanto à descoberta cabralina.

Contudo, é evidente que o conteúdo apresentado aqui conta apenas fragmentos das muitas e interessantes, e sobretudo, importantes viagens de Américo Vespúcio. No entanto, seja por motivos econômicos, seja por motivos políticos, Vespúcio conseguiu o que tanto queria antes de iniciar sua vida nos mares, ficar famoso após sua morte, dificilmente encontramos algum registro da história das navegações lusas o qual não mencione, mesmo que discretamente, o nome de Américo Vespúcio. Fontana reconhece sua importância para a história do Brasil, e nos diz:

Graças à intuição e ao trabalho de Vespúcio, primeiro nasceu o nome do Brasil (1501-1502), depois o de América, precisamente para reconhecer e honrar a grande descoberta (Martin Waldseemüller, 1507), nome esse que coincide e se identifica com o primeiro.

Referência bibliográfica:

FONTANA, Riccardo, O Brasil de Américo Vespúcio, UNB, Brasília -- 1994/1995. (Tradução: Edílson Alkmim Cunha e João Pedro Mendes)
BUENO, Eduardo, Náufragos, Traficantese Degredados: as primeiras expedições ao Brasil, Objetiva, RJ -- 1998, volume II, coleção Terra Brasilis.

Descrição de figuras

CRISTIANO CATARIN (catarin@estadao.com.br)
04 DE NOVEMBRO DE 2003

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