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Kosovo e Timor: tratamento diferente para dramas idênticos? (Alain Frachon)

Depois de muita tergiversação na crise de Kosovo, os ocidentais acabaram intervindo. Em março, sem o acordo de Belgrado, é claro, e mesmo sem a aprovação formal do Conselho de Segurança da ONU - que poderia ser paralisada por um duplo veto, russo e chinês -, a OTAN entrou em ação.





Mas no Timor Leste - arruinado, pilhado, devastado, esvaziado de sua população pelo exército e pelas milícias indonésias- esperou. Esperou o acordo de Jacarta para decidir enviar uma força internacional a Dili, capital de Timor Leste.

No entanto, não faltam pontos comuns às duas situações. Em ambos os casos uma população minoritária - muçulmana em Kosovo, católica em Timor Leste- é martirizada pelo Estado que a governa. É expulsa de sua terra. Suas elites são presas ou assassinadas pelo exército e pela polícia. Seus locais de culto, símbolos de sua "diferença" - mesquitas em Kosovo, igrejas e conventos em Timor -, são incendiados.

O exército e uma legião de milícias que ele controla devastam o território: em Kosovo para impedir a volta da população; em Timor Leste para puni-la por ter escolhido a independência e enviar um sinal para outros componentes do país tentados pela mesma evolução.

O passado dos sérvios na Bósnia permitiria prever o pior para Kosovo; o do exército indonésio faz temer um massacre coletivo em Timor Leste. Em ambos os casos, mas com um pano de fundo histórico muito diferente, as populações vitimadas desejam se separar do Estado que as oprime. Em ambos os lugares um movimento independentista pegou em armas contra o governo central.
Existem nuances. A comunidade internacional nunca defendeu a independência de Kosovo, que pelo menos formalmente continua dentro das fronteiras sérvias. Por outro lado, a ONU sempre apoiou a aspiração dos habitantes de Timor Leste à independência. As Nações Unidas jamais reconheceram a anexação do território pela Indonésia em 1976, depois que deixou de ser colônia portuguesa.

Poder-se-ia pensar que isso justificaria ainda mais uma intervenção militar internacional em Timor Leste. Com a aprovação de Jacarta, a ONU organizou o plebiscito de 30 de agosto: cerca de 80% dos 850 mil timorenses votaram a favor da independência. A organização do processo de voto pela comunidade internacional deveria implicar a segurança dos eleitores, antes, durante e depois do escrutínio.

Logo após a guerra em Kosovo Bill Clinton declarou que a operação da OTAN deveria servir de exemplo e precedente: "Qualquer pessoa, viva ela na África, na Europa Central ou em qualquer outro lugar, que pretenda cometer crimes em massa contra uma população civil inocente deve saber que a impediremos, na medida de nossas possibilidades", declarou o presidente americano.
No dia seguinte aos massacres em Dili, Samuel "Sandy" Berger, o chefe do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, disse: "Não é porque bombardeamos Belgrado que vamos bombardear Dili", e James Rubin, o influente porta-voz do Departamento de Estado, explicou: "Timor Leste não é Kosovo".

Entre a visão da opinião pública, que não percebe muitas diferenças, e a dos estrategistas ocidentais existe inicialmente um mal-entendido sobre as razões da intervenção da OTAN contra a Sérvia. O "humanitário" pesou na motivação dos ocidentais em Kosovo, mas entre outros fatores.
Teve pelo menos igual peso na balança o fato de que a opção "não agir" em Kosovo foi considerada insustentável: seria aceitar uma longa guerrilha entre o movimento independentista kosovar e as forças sérvias, com riscos de desestabilização regional considerados maiores que os provocados por uma intervenção da OTAN.

Fator de desestabilização

Houve também, sobretudo em Washington, a preocupação de encontrar uma nova razão de ser para a OTAN. Tratava-se de justificar a manutenção de uma organização militar que garante a presença norte-americana na Europa, mas que ficou sem missão definida depois da Guerra Fria.

Houve ainda, dessa vez no Velho Continente, o argumento da vizinhança, usado com duplo sentido: para não negar seus valores fundamentais, a União Européia não poderia tolerar em suas portas os "crimes contra a humanidade" perpetrados pelos sérvios; a proximidade geográfica tornava ainda mais plausível a intervenção militar.

Enfim, tanto em Washington como na Europa, onde por muito tempo houve a preocupação de poupar Slobodan Milosevic, visto como indispensável para a boa aplicação dos acordos sobre a Bósnia, o homem de Belgrado acabou cansando. Os ocidentais não apenas perderam qualquer ilusão a seu respeito como passaram a considerar o regime de Milosevic um fator de desestabilização regional.
Ao que parece o caso de Timor Leste se coloca em termos bem diferentes para os europeus e para os Estados Unidos, embora estes pretendam ser uma potência no Pacífico. Timor é distante. Não há certeza de que os estrategistas do Departamento de Estado, do Foreign Office ou do Quai d`Orsay tenham concluído que a opção "não agir" militarmente seja mais desestabilizadora para a região do que a de uma eventual intervenção unilateral.

É certo, por outro lado, que os países dessa mesma região, com exceção da Austrália e da Nova Zelândia, se opõem categoricamente à intervenção internacional em Timor sem o aval de Jacarta.

Nenhum desses elementos figurou no caso de Kosovo. Mais uma vez parece que do ponto de vista dos dirigentes norte-americanos a Indonésia é um "gigante" asiático, uma grande potência regional; a Sérvia é um país economicamente pequeno, e também militarmente, nas mãos de um regime ultranacionalista já enfraquecido por um severo embargo.

"A Indonésia [mais de 200 milhões de habitantes] está em quarto lugar entre os países mais populosos do mundo", lembrou Samuel Berger. Mensagem: a Indonésia conta mais na Ásia, econômica, militar e estrategicamente, que a Sérvia na Europa. Esta, para os Estados Unidos, é um "Estado pária", no mesmo nível do Iraque; a Indonésia, que mandou massacrar 200 mil timorenses nos anos 70 e cujo exército poderia ser acusado de tentativa de genocídio, é antiga aliada de Washington desde a Guerra Fria.

Pela primeira vez em sua existência a Indonésia tem um presidente civil, B.J. Habibie. Sob pressão dos credores internacionais, que vieram socorrer o país, Habibie empreendeu um início de democratização. Uma das primeiras manifestações dessa mudança foi justamente o sinal verde dado por Jacarta - pelo menos pelo poder civil- para a organização de um plebiscito sobre a independência de Timor Leste.

Os ocidentais querem poupar Habibi; na crise de Kosovo eles desejavam -e ainda desejam- a saída de Milosevic.
Os ocidentais dizem temer que uma intervenção internacional unilateral em Timor Leste seja pretexto para que o exército tome abertamente o poder e liquide a experiência de democratização. Daí a necessidade, segundo eles, de ter o sinal verde de Habibi.

Texto extraído do "LE MONDE" em português, de 14 / 09 / 99
Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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