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Biografias

Toussaint Louverture

Toussaint Louverture

Nascido na então colônia francesa de Santo Domingo entre 1743 e 1746, tornou-se um símbolo da liberdade dos negros nas Américas e está fortemente relacionado com a independência de sua terra natal. Contudo, é um personagem complexo e até polêmico. Antes de lermos sobre sua vida, temos que compreender que ele não buscava no início a independência de seu país. Buscava sim uma autonomia, liberdade de comércio e a aplicação à colônia dos princípios defendidos pela Revolução Francesa. Lutou ao lado da Espanha e da França e depois contra elas e contra a Inglaterra.
Vejamos o que nos diz sobre ele o diplomata Osvaldo Orico, em seu livro ¿A Luta pela Independência da Américas¿:

¿Até os trinta e cinco ano permaneceu trabalhando na habitación pertencente ao Conde Noé, da família Bréda, e governada por M. Bayon. Foi libertado por seu amo, que o cumulou de graças, inclusive a de distingui-lo com a função de cocheiro privado, categoria muito apreciada entre o pessoal doméstico daquela época.
Concorreu mais tarde à escolinha de um professor campesino chamado Pierre Baptiste, seu padrinho, onde aprendeu noções gerais e aperfeiçoou os conhecimentos de francês, pois antes falava uma espécie de patois, misturando palavras de todas as línguas que se cruzavam em seu caminho.
Na biblioteca do patrão, que passou a frequentar por liberalidade deste, encontrou vários livros que lhe provocaram a curiosidade das leituras. Entrou aí em contato com o Abade Raynal e a tradução francesa de Epicteto: os "Comentários" de Júlio César; "Os sonhos militares", do Marechal de Saxe; as narrativas de Heródoto e as "Vidas paralelas", de Plutarco, além de outros livros da corrente revolucionária, que germinavam na Europa.
Viveu uma existência burguesa, desfrutando dias tranquilos até os quarenta anos de idade, quando a insurreição geral dos escravos veio adverti-lo de que tinha no sangue um mandato a cumprir.

(...) Exterminada em grande parte a raça autóctone [da ilha] em razão das enfermidades e perseguições, o europeu pragmatista aproveitou o braço negro nas lavouras e minas. Os canaviais ocultavam em sua maré verde um intenso e cruel drama da exploração humana. A riqueza era produzida pelo suor do negro, deserdado de todos os direitos à vida livre. Viveu-se no Caribe um dos momentos verdadeiramente dramáticos do Novo Mundo: o choque dos conquistadores europeus com seus escravos. Choque para o qual não apareceu o pintor que lhe fizesse o mural; ou o romancista que lhe escrevesse o argumento. (...)

Em sua época de maior esplendor e tranquilidade, aí pelos idos de 1791, o Haiti contava com uma população branca de trinta mil habitantes e como tanto de affranchis (mulatos e libertos); e quatrocentos e cinquenta e cinco mil escravos. O regime de
trabalho e o desnivelamento das classes preparavam a convulsão social.
Toussaint aparece na crista da vaga como o homem providencial destinado a catalizar em benefício de um movimento subversivo os descontentamentos recalcados. Incorpora-se à coluna guerreira de Bonson ¿ um chefe negro que comandava a tempestade com
o verbo ¿ e com ele vais às fileiras espanholas que matreiramente sopravam a rebelião, ajudando com armas e munições aos nativos rebelados contra a dominação francesa.
O fogo varre as extensas áreas de canaviais e chega às habitaciónes, deixando no caminho um rastro de cinzas. A Ilha transforma-se numa coivara. Por prémio de sua capacidade demolidora e combativa, Toussaint recebe dos espanhóis o título de tenente-coronel. O guerreiro que o incêndio social revelara não se deixaria fascinar pela patente. No curso da batalha contra os preconceitos raciais, a Convenção Nacional [francesa, assembléia revolucionária] decreta a manumissão [alforria] dos escravos em um dos impulsos libertadores da Revolução Francesa. Ouvido atento ao rumor de uma nova era, Toussaint interpreta o ato como uma chamada do destino; e à frente de quatro mil homens, perfeitamente disciplinados, incorpora-se às fileiras francesas para combater uma expedição inglesa contra a Ilha, expedição essa provocada pela guerra que então se acendera na Europa.
Por sua atuação nos acontecimentos, a Convenção Francesa outorgou a Toussaint o grau de Brigadier General; depois, foi promovido a general-de-divisão. Deixara de ser um simples guerreiro para tornar-se um chefe militar, com uniforme de general da República, bicórnio e dragonas. Formou um estado-maior de colaboradores tão valentes e valorosos como ele: Cristofe, Desatines e Clerveaux, que ascenderam na história haitiniana conduzidos pelo seu exemplo."
Nesta época, Toussaint conseguiu, com armas e diplomacia, repelir uma expedição inglesa à ilha. Por essa vitória militar e diplomática, foi promovido a general-chefe do Exército colonial. E a sua figura passou à História como o Espártaco antilhano.
Teria sido ele, porém, uma simples guerreiro em favor dos escravos? Não. Toussaint representa alguma coisa mais do que a presença do vingador de uma raça à frente de escravos rebelados. Significa uma concepção mais ampla:
a luta por formas jurídicas de convivência, a equiparação do direito dos cativos aos dos libertos, dos colonos e conquistadores brancos.
Disciplinou seu exército à maneira européia; colocou à frente de suas tropas oficiais de merecimento, sem olhar a procedência; organizou arsenais e parques; deu forma à massa amorfa. Lutou com os espanhóis; dominou os franceses; deteve os ingleses.
Por sua capacidade militar e rapidez de manobras, foi chamado o "Napoleão das Antilhas", mas Bonaparte tinha por base uma grande nação, elevada cultura e muita ciência. Marchava para as batalhas em soberbos cavalos. Toussaint tinha de fazer tudo
na base da improvisação. Era a sombra de Bonaparte num cenário de praias e coqueiros. . .
Revelou-se, além disso, um organizador incansável. Fundou a residência, dando-lhe bases económicas; fomentou e conservou as lavouras; criou escolas que ele próprio inspecionava; instalou hospitais, lembrando-se de que nos começos da vida, com os
conhecimentos rudimentares que lhe vinham de leituras de obras científicas, com a experiência adquirida na habitación em que se criara e trato com plantas medicinais, atuara como médico de uma unidade revolucionaria sob seu comando.
Era, em verdade, um guerreiro telúrico, verdadeiro intérprete de sua Ilha, pintada de verde e tostada de sol.
Considerando-se general-chefe, tinha certo ar prepotente. Trazia gravada na memória a frase de seu primeiro comandante: "Tende a coragem de querer ser um povo; e logo sereis igual às nações européias".
Não se resignava em ser apenas estrutura, massa, material humano; queria organizar-se como povo, ser nação e soberania. Criou com esse objetivo uma missão de dez membros encarregada de redigir uma Constituição. A Carta foi promulgada a 8 de julho de 1801.
Por ela constituiu-se em Governador Perpétuo, com direito a designar sucessor. Reconhecia, porém, que Haiti formava parte do Império Francês. Pelo tratado de Basiléia (1795), a Espanha havia cedido à França a parte leste da Ilha, mas não se havia operado
a ocupação efetiva. Toussaint efetivou esse propósito; depois de vencer a seus rivais como Rigaud, organizou um exército de vinte e cinco mil homens e chegou a dominar toda a Ilha.
O domínio é, em geral, sinónimo de prepotência. Ocorreu depois o que deveria ocorrer nos espaços em que as emoções sociais deixam vivos seus fermentos. Por uma hábil intriga do Governador francês Hédouville, produziu-se um mal-enendido entre as áreas
militares de comando e, em consequência, o choque entre Toussaint e o valente General Rigaud, a quem o Governador havia autorizado a embarcar e não obedecer ao General-Chefe. A luta foi árdua e degenerou em tremenda anarquia, até que Toussaint dominou o General do sul. Essas tempestuosas circunstâncias obrigaram-no a tomar medidas enérgicas de repressão e serviram de base para que seus inimigos e detratores o apresentassem como um déspota ¿ o demónio dos canaviais. Nenhum, porém, se atreveu a negar-lhe o génio guerreiro, que lhe permitiu subir de cocheiro ao posto de general-chefe.
Sentia-se, por fim, que sua grandeza feria não somente os pequeninos inimigos de dentro, mas incomodava ou irritava os grandes. Despertou a desconfiança de Napoleão Bonaparte, ilhéu como ele. O leão quis liquidar a pulga que lhe roçava o pelo com seu atrevimento: e mandou organizar uma expedição de vinte mil veteranos sob as ordens de seu cunhado, o General Leclerc, marido de Paulina Bonaparte.
Convém assinalar, de passagem, que, até antes, as colónias francesas estavam submetidas à mesma lei da Metrópole, isto é, possuíam representantes nas assembleias nacionais legislativas e não se podia modificar o estatuto político de seus habitantes sem modificar a Lei Maior. Com o golpe de Estado francês do 18 Brumário, a Constituição dele saída anulava essas garantias, deixando as colónias ao sabor das leis particularistas que já anunciavam o advento das intenções reacionárias do governo de Bonaparte. Influenciado pelos colonos ¿ escreve Pauléos Sannon ¿, este não esperava senão o restabelecimento da paz com a Inglaterra para destruir o regime de liberdade e de igualdade com o qual as grandes Assembleias da Revolução tinham consagrado a emancipação definitiva dos negros.
Isso explica o fato de que um homem da grandeza de Napoleão se preocupasse com o ¿nègre revolté¿ e, considerando-o um grand coupable, quisesse desfazer-se desses "Africains dorés qui osaient se croire d´es hommes" e intentasse reconduzi-los à sua condição anterior a 1789.
Radical e autoritário, Napoleão teria dito a um de seus colaboradores do governo consular, o Brigadeiro Vincent: "Je ne laisserai jamais une épaulette sur l'épaule dáun nègre".
Era o desafio. A ele soube Toussaint-Louverture responder, dentro da modéstia de seus recursos, com uma expressão que marca o instante decisivo, a hora estelar de sua jornada de guerreiro. Proferiu-a no momento em que teve ciência dos preparativos da expedição:
¿ Je saisis mês armes pour Ia liberte de ma couleur que Ia France a seule proclamé; elle náa pás le droit de nous rendre esclaves; notre liberté ne lui appartient plus. Cáest bien à nous, nous saurons Ia défendre ou périr.

Não estava nas intenções do Espartaco antilhano rebelar-se contra a Metrópole; mas entre a França e a liberdade, quando aquela, sob a pressão do governo consular, derrubava os princípios desta, era imperativa a opção.
E o humilde guerreiro de Santo Domingo ficou ao lado de seus irmãos em cor, disposto a enfrentar a expedição que armava contra os negros aquele que seria o homem mais poderoso do Mundo.
O Cônsul Boneparte ainda considerou a hipótese de se compor com o caudilho de ébano, fazendo dele o capitão-general de Santo Domingo antes de decidir-se a eliminá-lo do mapa colonial.
O ódio, porém, foi maior do que a razão.
A expedição punitiva foi organizada. Chegou ao seu destino sob o comando de Leclerc, que dirigiu as operações de desembarque (6 de fevereiro de 1802).
Leclerc desembarcou na Ilha depois de vencer a resistência de Toussaint e de seus colaboradores. Fez a campanha da terra arrasada, queimando casas e engenhos, destruindo plantações e apresando animais. Em lugar de recorrer às guerrilhas, que lhe
poderiam ser úteis na emergência, Toussaint cometeu o erro de concentrar suas tropas e oferecer combate ao inimigo em Ravinea-Couleuvres, onde foi derrotado pelo general francês Rochambeau. Refugiou-se no interior, à espera dos acontecimentos. Depois da
derrota do valente Desalines, cuja resistência fora quebrada em Crête-a-Pierrot, Toussaint foi obrigado a aceitar a proposta de paz que lhe fora oferecida. Entregou-se a 5 de maio de 1802 e passou á viver em sua antiga "habitación", sem afastar-se, entretanto, dos compromissos com seu povo. O General Leclerc (filho do militar francês que atuou na guerra de independência dos Estados Unidos), saído dos exércitos republicanos que lutavam em toda a Europa pela liberdade dos povos e pêlos direitos do homem, no Caribe arriou sua bandeira, empenhando-se em dominar um país, cujos postulados, segundo Toussaint, se concretizavam em três fórmulas: os escravos pediam a manumissão; os libertos "affranchis", a equiparação dos direitos; e todos, a liberdade de comércio e diminuição de tributos.
Toussaint vivia retirado, quando Leclerc surpreendeu uma carta que o comprometia, ardil impróprio de um soldado da categoria do General Brunet. Colhido nessa trama, viu-se detido a 10 de junho de 1802 e embarcado para a França a bordo do "LáHéros".
Por ordem de Napoleão, que lhe negou todas as regalias, foi encarcerado no Forte de Joux, nas ladeiras geladas do Jura, fronteira com a Suíça. Ali, em frias e sujas masmorras, faleceu a 7 de abril de 1803.
Ao despedir-se de seu povo, havia dito: "Derrubando-me a mim, não abateram em Santo Domingo o tronco da árvore da liberdade dos negros. Ele se renova pelas raízes, que são numerosas e profundas". O tempo viria a dar-lhe razão.
Com ele ensaiou o Haiti os primeiros passos para a emancipação nos negros, colocando-se no rumo da independência.
Foi a cidade de Gonaïves, onde Toussaint-Louverture residiu e de onde partiu para ir morrer na França, que o General Desalines, um de seus colaboradores mais devotados, escolheu como berço da Independência.
Reunindo-se na Praça de Armas aos seus generais e comandados, o líder militar leu no meio do povo a ata da emancipação política celebrada a 1.° de janeiro de 1804, primeiro dia da independência do Haiti.
Desaparecia a antiga colónia francesa de Santo Domingo, dando lugar a uma nação mestiça. O General Jean-Jacques Desalines foi investido no cargo de governador vitalício; mas achando pouco o título, fez-se proclamar em setembro do mesmo ano Imperador, sob o nome de Jacques l.
Não se deve esquecer que foi esse país a primeira porção da América não-saxona a emancipar-se, antes que o fizessem as colónias ibero-americanas.
Toussaint-Louverture, o precursor, conquistara o Poder para servir à liberdade. E tê-lo-ia colocado sempre a serviço da França, se esta se não houvesse oposto àquela. Para manter-se, apoiou-se o cabecilha negro na Constituição colonial de 1801, desafiando a ira de Bonaparte. Recebeu o castigo, mas teve também seu prêmio. Foi quando o Imperador se penitenciou, em Santa Helena, das travessuras do Primeiro Cônsul contra a colônia de Santo Domingo, confessando o erro de querer submetê-la pelas armas em vez de governá-la pelas leis. Isto é: pelas mãos de Toussaint.
Confissão que, nem por ser "tardia", deixa de representar um tributo: o laurel com que o maior capitão da História contemporânea consagrou a luta do humilde escravo de Bréda.

BIBLIOGRAFIA: A Luta Pela Independência das Américas, Osvaldo Orico

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