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As esquinas perigosas da História

Como? As revoluções ainda existem?

O historiador brasileiro Valério Arcary afirma que sim e demonstra, em livro provocante, que elas não dependem da vontade de possíveis revolucionários. Resultam da entrada em cena de milhões de pessoas, até então politicamente inativas, empurradas pelas tensões não resolvidas e acumuladas pelas sociedades ao longo da História.

Gilberto Maringoni


Há na praça um grande livro, que não mereceu sequer uma linha de comentário na grande imprensa. O silêncio é compreensível: trata-se de um volume sobre "Situações revolucionárias em perspectiva marxista", tema tido como superado e anacrônico para os observadores bem pensantes da cena política.
Anacrônico, em termos. A Bolívia das últimas semanas está aí para tirar o ranço de postulações que teimavam em empurrar o conceito de "revolução" para as prateleiras empoeiradas de alguma biblioteca.
A mudez da mídia "faz parte", diria um integrante do Big Brother Brasil, este sim merecedor de louvaminhas mil em circuitos impressos, virtuais e televisados. É uma lástima, pois Esquinas perigosas da história (240 págs, R$ 27, www.xamaeditora.com.br), de Valério Arcary, é um trabalho brilhante, escrito por um dos mais competentes intelectuais da geração que se temperou ainda adolescente, em 1974, na Revolução dos Cravos, em Portugal, e que participou ativamente das mobilizações populares no Brasil entre a segunda metade dos anos 1970 e o final da década seguinte. Além da erudição e da recusa a qualquer tipo de maniqueísmo, Arcary trata de temas para lá de cabeludos com um estilo fluente e elegante, capaz de sensibilizar até mesmo os não-iniciados nas artes do que se convencionou chamar de materialismo dialético. Mas que diabos falar em revolução numa hora dessas?

Condições e vontades

Valério não se incomoda com a estranheza. "Todas as sociedades recorreram, em algum momento de sua história, ao método das reformas ou ao método das revoluções para enfrentar a necessidade da mudança", afirma ele, logo de saída. E completa: "Não o fizeram, todavia, quando o queriam. São exteriores à vontade dos partidos e organizações as condições que favorecem as reformas, ou precipitam o vendaval revolucionário". A partir daí, ao longo de dez capítulos, o autor esmiuça o sentido de "situação revolucionária", "crise revolucionária", "revolução política" e "revolução social". Não é uma autópsia ou uma exegese de um organismo morto o que o leva adiante. É antes a necessidade de buscar entender as grandes ondas revolucionárias do século XX, suas características essenciais, sua difusão internacional e sua influência no continente latino-americano. O historiador estende sua lupa para "La Paz, 2003, Buenos Aires, 2001, Caracas, 2002, Quito, 2000", assinalando os levantes populares que sacudiram estruturas de poder assentadas em décadas de exploração e práticas ultraliberais.
Valério Arcary se lastreia, entre outras, numa feliz definição de León Trotsky, que classificou as revoluções políticas e sociais. As primeiras foram denominadas de revoluções de fevereiro, em alusão àquela que varreu o czarismo da Rússia, em 1917. Houve um levante popular e o poder político mudou de mãos, mas o poder econômico manteve-se onde sempre esteve. Já as revoluções sociais, ou de outubro, aludem à ruptura liderada pelos bolcheviques e que mudaram as estruituras sociais e econômicas e colocaram em xeque o maior pilar da ordem que se desfazia: a propriedade privada. Aqui, o autor se distancia dos manuais teóricos tão em voga nas décadas em que Moscou era tida como o centro irradiador da revolução mundial e percebe que cada processo construiu suas próprias características temporais, culturais e sociais.

Desenlaces de tensões

Revoluções são desenlaces de tensões acumuladas em sociedades que não conseguiram recorrer a outras vias, como uma sucessão de reformas. Nem todas as revoluções de fevereiro, lembra ele, resultaram em revoluções otubristas. Ou seja, nem sempre confrontos que deitaram governos e regimes por terra descambaram para processos mais profundos, de mudanças nas estruturas econômicas e sociais

Aliás, nenhum dos processos revolucionários dos últimos 30 anos, depois da vitória definitiva dos vietnamitas contra os EUA, avançou o sinal para derrubar a sacrossanta ordem do capital. Os exemplos pululam nas últimas três décadas. Vão do Irã, Nicarágua, no final dos anos 1970, ao levante indígena equatoriano em 2000, à deposição de Fernando de la Rúa, no ano seguinte, cortam a Venezuela nos anos recentes e chegam à Bolívia, nas últimas semanas. Muito antes da queda do Muro, portanto, o ímpeto revolucionário começou a alargar as etapas teoricamente complementares entre fevereiros e outubros, até que a primeira prescindiu da . segunda, sem que as causas mais estruturais que as motivaram tenha conhecido solução. "As revoluções de fevereiro recorrentes foram, nesse sentido, revoluções sociais 'abortadas'", conclui Arcary, lembrando que "sem as massas não se fazem revoluções e sem a luta pelo poder não se fazem mudanças".

Antiglobalização e anticapitalismo

Mesmo o movimento antiglobalização não demonstra ainda ter fôlego para uma empreitada mais profunda. Deixemos que o autor fale:
"Durante a invasão do Iraque de 2003 revelou-se a majestosa imponência da mobilização internacional unificada, em uma escala como o mundo não tinha visto desde a campanha de solidariedade com o Vietnã (...). A repercussão do movimento antiglobalização reside na força de atração do apelo internacionalista. (...) Mas as posições anticapitalistas não são majoritarias em seu interior. Muitas variedades de internacionalismo convivem e eventualmente agem em coordenação no mundo em que vivemos. Inexiste, todavia, por enquanto, um internacionalismo revolucionário e socialista com capacidade de intervenção política à escala de todos os continentes".
Valério busca explicações para esta constatação. Não se trata apenas da queda da União Soviética ou da força que o capitalismo atingiu nos últimos anos. A natureza de uma época, lembra ele, "o caráter imperialista da contra-revolução", determina "senão em primeira, em última instância a natureza do conflito". A partir daí, o livro examina as várias características das diferentes experiências, como a identificação de quem era o sujeito social - ou que classes -, que sujeito político - partidos ou organizações - a comandar o processo. E chama atenção para as transformações ocorridas no interior das diversas classes sociais que se enfrentaram nos embates políticos.

As ondas revolucionárias

As revoluções, ao longo dos últimos 150 anos, estiveram "inseridas em conjunturas pelo menos continentais", lembra o autor. Assim, ele busca identificar suas dinâmicas e verifica a ocorrência de cinco vagas revolucionárias no século XX, apontando seus epicentros irradiadores. "Petrogrado em 1917, Barcelona em 1937, Iugoslávia em 1945, China em 1949, Paris em 1968, Lisboa em 1974, Manágua em 1979 e Berlim em 1989". Este último, claro, representou um impulso contra-revolucionário que alcançou todo o Leste Europeu. Mas não deixa de ter características de mudanças comandadas por grandes mobilizações populares.
E estaria começando, "possivelmente", agora, na América Latina, uma nova vaga, cujos resultados ainda não apareceram totalmente. No final do livro, num capítulo escrito há mais de um ano, Valério Arcary já identificava um dos nós a serem destatados no médio prazo. E indagava sobre os rumos a seguir:
"A onda de revoluções que sacode a América Latina desde o início do século XXI, e alcançou na Bolívia recentemente um patamar mais elevado de radicalização, reabriu discussões estratégicas sobre o futuro da luta socialista. O processo poderia avançar até que limites? Poderiam voltar a ocorrer revoluções anticapitalistas protagonizadas por sujeitos sociais não-proletários? Em que medida a pressão da luta de massas poderia empurrar as forças políticas dirigentes, em sua maioria reformistas, ou quando muito centristas, além da propriedade privada?"
As respostas não serão conhecidas em simpósios acadêmicos ou debates acalorados. Virão das ruas e das esquinas da História. Vale a pena, portanto, lembrar das últimas frases de "Tempos interessantes", as provocantes memórias do historiador inglês Eric Hobsbawm: "Não nos desarmemos, mesmo em tempos insatisfatórios. A injustiça social ainda precisa ser denunciada e combatida. O mundo não vai melhorar sozinho".
Valério, pelo visto, acha o mesmo

Agência Carta Maior

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