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AS GUERRAS DO IMPÉRIO

Atolados no Iraque, EUA elevam tom contra Irã

As eleições no Iraque e na Palestina, além do caso das charges, favoreceram os radicais em Teerã. A visão crítica em relação ao Ocidente e as pregações sobre as tentativas do Ocidente de humilhar o Islã apareceram como uma realidade sensível para xiitas e sunitas. Diante desse cenário, a possibilidade de uso de força militar para paralisar o programa nuclear iraniano, aventada por Condoleezza Rice, seria a maior catástrofe possível no atual cenário das relações internacionais. A análise é de Francisco Carlos Teixera.

Francisco Carlos Teixeira - Carta Maior

Após as eleições gerais de 15 de dezembro, que se desenrolaram em inédita condição de tranqüilidade, o Iraque retornou ao seu habitual ciclo de violência: do começo de janeiro até hoje deram-se mais 300 ataques terroristas. Por outro lado, as instalações de petróleo do país - a fonte básica de recursos - foram duramente atacadas, quase paralisando a economia local. É neste clima que devemos analisar o caso das charges satirizando o Profeta Mohammed e as ameaças de Condoleezza Rice em usar a força militar contra o Irã.

Os iraquianos votam e o Irã ganha
As eleições iraquianas apontaram para uma ampla vitória da Aliança Iraque Unido, formada pelo Conselho Supremo da Revolução Iraquiana - partido xiita liderado pelo Grande Aiatolá Ali al-Sixtani - e o partido Al-Daw´ah, xiita moderado, liderado pelo atual primeiro-ministro Ibrahim Al-Ja'afari. A aliança elegeu 132 deputados, num parlamento de 275 lugares, alcançando cerca de 48% dos votos. Embora seja uma vitória significativa, a Aliança Iraque Unido ficou bastante longe dos prognósticos de 60% dos votos, como esperava.

Assim, os xiitas, hoje no poder em Bagdá, terão de fazer alianças políticas para continuar governando. A mais provável é a repetição do atual arranjo político, unindo a Aliança com os partidos da minoria curda, que alcançaram 25% dos votos, elegendo 70 deputados.

Contudo a arquitetura de tal aliança é complexa e delicada. Os xiitas de Al-Sixtani e Al-Ja'afari esperavam contar com uma maioria suficiente no parlamento para dispensar o custoso apoio curdo. Estes, para manterem o governo xiita funcionando, exigem concessões em direção a autonomia curda (ao norte do Iraque) cada vez mais pesadas. Entre elas, plena autonomia fiscal e financeira, autonomia de sua milícia armada - a Peshmerga - e uma reforma do desenho das províncias que integre a área petrolífera de Kirkuk na sua região autônoma. Para muitos iraquianos - em especial os sunitas que estavam no poder com Saddam Hussein - tais concessões representam apenas o primeiro passo para a desintegração do país e a emergência de um Curdistão autônomo.

A dependência da Aliança Iraque Unido em direção aos Estados Unidos, em matéria de segurança, e em relação aos curdos, para a manutenção de um governo estável em Bagdá, fragiliza a legitimidade nacional do governo xiita. Muitos no interior do Conselho da Revolução Islâmica do Iraque prefeririam uma colaboração mais estreita com os iranianos, com quem compartilham visões de mundo e, muitas vezes, uma longa convivência no exílio.

Assim, o resultado das eleições deverão cada vez mais aproximar Bagdá e Teerã, num sentimento de irmandade frente ao Ocidente. O escândalo decorrente do caso das charges satirizando o Profeta Mohammed ajudou imensamente na restauração de uma certa unidade da comunidade islâmica - a Ummah - em face de "ocidentais", malgrado as diferenças entre xiitas e sunitas. Da mesma forma, os seguidos ataques dos Estados Unidos contra o Irã e a vitória do Hamas na Palestina - com a ampla rejeição do Ocidente - sinalizam uma situação de retorno a sua própria cultura que dificulta qualquer aproximação com o Ocidente.

As eleições no Iraque e na Palestina, além do caso das charges, favoreceram largamente os radicais em Teerã. Sua visão crítica em relação ao Ocidente e suas pregações sobre as tentativas do Ocidente de humilhar a Ummah (comunidade) islâmica apareceram, de forma turva, como uma realidade sensível para todos os muçulmanos, xiitas ou sunitas.

As ameaças de "Condi" Rice
É neste sentido que devemos analisar as ameaças contidas na entrevista do último domingo (12) da secretária de Estado dos Estados Unidos. A possibilidade de uso da força militar americana para paralisar o programa nuclear iraniano seria, neste momento, a maior catástrofe possível nas relações internacionais. Não apenas envolveria os Estados Unidos e o Irã, mas ainda o conjunto da comunidade mundial numa tremenda espiral de violência. O primeiro resultado sensível, e de imediato, seria uma brusca elevação no preço do barril de petróleo em torno de 25% (sobre os cerca de sessenta dólares atuais) impactando fortemente as economias do Ocidente, do Japão, Coréia e Formosa, além da China e Índia. A instabilidade econômica poderia atingir rapidamente a moeda americana, causando forte choque nos termos do comércio mundial e na garantia das reservas mundiais existentes (o que poderia acelerar a migração do dólar para o euro).

Mesmo sabendo-se da infinita superioridade militar americana, os iranianos poderiam responder com algum sucesso, principalmente contra a marinha americana no Golfo Pérsico, contra Israel e contra as instalações petrolíferas off-shore na área do Golfo. Sua tecnologia, e recursos, militares - em especial os mísseis da classe Shahaba - teriam bastante eficácia. Além disso, a grande população xiita em todo o mundo - Líbano, Síria, Emirados árabes, etc... - poderia aderir a radicalidade terrorista, como fizeram os sunitas de tipo wahabita no Iraque.

Além disso, os Estados Unidos estão envolvidos em duas guerras simultâneas - no Iraque e no Afeganistão - com tremendos custos financeiros, incidindo sobre o déficit duplo do país e causando um número inesperado de baixas. Em tais condições, partir para um terceiro cenário militar é bastante improvável.

Sendo tão improvável um ataque, por que razão fazer tais ameaças? Uma explicação simples é o hábito da Administração Bush, em pôr sobre a mesa desde cedo a opção militar. Neste caso, com o Irã - como foi o caso da Coréia do Norte - parece contraproducente, capaz apenas de radicalizar o debate da questão. "Condi" Rice poderia também - numa estratégia do tipo "o rabo sacode o cão" - invertendo os termos da equação, falando duro para se qualificar frente aos conservadores americanos como uma mulher capaz de ser a sucessora do presidente Bush...

Em suma, as declarações da Senhora Rice são bastante fantasiosas... ou tremendamente perigosas.

De volta a Bagdá
Após mais de um mês das eleições gerais de 15 de dezembro de 2005, a Comissão Eleitoral Iraquiana publicou, no dia 20 de janeiro de 2006, os resultados finais. Estes só foram tornados públicos, por sua vez, ao final do mês. O voto - a mais ampla e efetiva eleição já realizada no país - resultaram num fortalecimento do partido no poder - a Aliança Iraque Unido/UIA - que conseguiu 132 representantes (sobre um total de 275), ficando apenas 10 lugares da maioria absoluta no parlamento iraquiano. O resultado, embora bastante positivo para a UIA, obrigará, mais uma vez, a busca de uma coligação. O cenário mais evidente seria a repetição do acordo parlamentar vigente, com a Aliança Curda, resultado da unificação dos governos curdos das três províncias nortistas do país, que alcançou 70 lugares no parlamento. Tal aliança - como o governo hoje existente sob a chefia de Ibrahim Al-Ja'afari - contaria com o apoio do Grande Aiatolá Ali al-Sixtani e do presidente (curdo) Jalal Talabani.

Contudo, uma forte controvérsia instaurou-se sobre os resultados, adiando a formação de um novo governo. Cerca de 300 regiões eleitorais terão seus votos recontados.

Os sunitas e a resistência
A grande novidade foi a expressiva participação dos árabes sunitas, que através de uma aliança do Iraqui Accordance Front com National Diologue Front, conseguiram eleger 55 deputados, ultrapassando a representação curda (que estava sobre-representada em função do boicote sunita às eleições anteriores). É de se esperar uma clara oposição dos sunitas ao novo governo, bem como - em outra chave político-ideológica, do Iraqi National List, do ex-premier Ilad Alawi.

A saída do clérigo xiita radical Muqtada al-Sadr da UIA e a formação de uma lista à parte - a qual conseguiu apenas dois representantes - enfraqueceu bastante sua capacidade de agir na política nacional, favorecendo o monopólio xiita do Grande Aiatolá.

Apesar do último discurso triunfalista do presidente Bush, prometendo a vitória completa no Iraque, as condições reais existentes no país passam por amplo processo de deterioração, atingindo níveis perigosos para a gestão pública e para a manutenção dos fluxos econômicos mínimos. Na contra-mão do discurso presidencial na cerimônia junto aos veteranos das guerras americanas, o DoD (portal na internet do Departamento de Defesa dos EUA) publicou um relatório fazendo um balanço bastante pessimista do ano 2005. Para o "US Military Report Iraq 2005" houve, no país, "um crescimento dramático da violência", com uma média de 70 ataques insurgentes por dia. No plano da segurança as avaliações também são pessimistas, com 240 seqüestros (iraquianos e estrangeiros) e 39 mortes, a maioria como execuções. Da mesma forma, as instalações petrolíferas do país, vitais para o funcionamento da economia e das quais dependem 90% das finanças iraquianas, foram duramente atingidas em 2005.

A produção petrolífera do Iraque caiu, em 2005, mais 8%, passando de cerca de 2 milhões de barris/dia, em 2003 - sob Saddam Hussein e o regime de " Oil for Foods" - para 1,5 milhões de barris/dia em 2005.

Para o Banco Mundial, o país precisaria, em condições emergenciais, de investimentos diretos da ordem de 8 bilhões de dólares para atingir - em 40 meses - o nível de 3 milhões de barris/dia, média anterior à guerra. Contudo, a realização de tais investimentos parece ilusória no momento, já que a violência da insurgência torna qualquer investimento impossível. Da mesma forma, há uma imensa necessidade de pessoal técnico. Ora, exatamente os técnicos estrangeiros são o alvo privilegiado dos seqüestros e atentados, inviabilizando a reconstrução do setor.

As questões de segurança no setor petrolífero são precárias, transformando-se rapidamente em aberta corrupção. O caso mais recente envolve as plantas Kirkuk e Baiji. Em Kirkuk, em 5 de fevereiro deste ano, o "director of processing plant" foi preso por passar informações para a insurgência e que resultaram numa amplo ataque às instalações. Já em Baiji, o porta-voz do governo no parlamento, Mish´uan al-Jaburi, foi acusado de montar uma firma fantasma de segurança ao oleoduto que liga Baiji, através da província de Sala Al-Din, em Bagdá. Alguns milhares de dólares foram roubados, além de 200 Kalashnikov, enquanto Al-Jaburi fugia, aparentemente para a Síria. Um dos seus filhos foi companheiro de Udai Hussein. Ainda em Beiji, os serviços especializados estão convencidos que "high senior management" agem como inside information da insurgência, o que explicaria o caráter absolutamente certeiro dos últimos ataques às plantas, dutos e estradas locais.

O Ministério do Petróleo calcula que cerca de 40% até 50% da renda gerada pelo petróleo é apropriada, através do contrabando fronteiriço, pela insurgência.

A própria situação energética do Iraque - com cortes freqüentes de energia - está próxima do colapso. Esta semana, o governo da Turquia informou que estava suspendendo o subministro de Petróleo e Derivados ao país - em virtude uma dívida não-paga de 1 bilhão de dólares de Bagdá com Ankara.

Assim, depois de mais uma eleição, o Iraque está ainda uma vez na borda do desastre.


* Francisco Carlos Teixeira, colunista da Carta Maior, é professor de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro.



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