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Vestibulares

Prova de inteligência *

A Fuvest 2006 indica, através de sua prova de história, por que a USP ainda é uma das instituições públicas de ensino mais procurada do país.
Cláudio Recco

O ensino também vivencia as transformações socioeconômicas da última década, marcada pelo avanço do projeto neoliberal em nível mundial, inclusive no Brasil. A faceta inicial, que se tornou a marca desse processo, foram as privatizações, acompanhadas pela mentalidade de que as empresas privadas prestam um serviço muito melhor do que as estatais. Essa idéia foi exposta como verdade absoluta pelos seus defensores. Seus opositores foram considerados presos ao passado, ao socialismo ultrapassado, contrários à modernidade do mundo.

Nos grandes centros urbanos, a classe média trocou a escola pública pela escola privada e, ainda hoje, faz grande esforço para manter seus filhos em escolas particulares. Porém, esse movimento não atingiu o ensino universitário, mesmo considerando que, muitas vezes, uma universidade privada é mais barata que a escola média. O grande sonho de pais e jovens ainda é cursar uma universidade pública, não apenas pela gratuidade, mas também pelo prestígio que ainda gozam, apesar da acentuada decadência.

Uma prova do prestígio dessas instituições estatais foi o número recorde de inscritos para o vestibular da Fuvest, que seleciona os ingressantes na USP, maior universidade pública o país e uma das mais conceituadas.

O vestibular 2006 da Fuvest apresentou uma significativa transformação na prova da primeira fase de história, realizada no dia 4 de dezembro do ano passado. Essa mudança não está no formato - testes - ou na quantidade, mas na qualidade das questões. Os doze exercícios propostos inovaram, com maior ou menor intensidade, quanto à abordagem da história, prevalecendo a história comparada, e exigindo dos candidatos um conhecimento mais profundo, dispensando o conhecimento factual.

O que chamamos de história comparada no ensino médio é a capacidade de o aluno estabelecer relações, realizar pequenas análises e tirar conclusões. Significa, portanto, encarar uma questão teste como um problema para o qual há uma solução - colocada em uma das alternativas - que se conhecerá a partir da reflexão e não da memorização de capítulos e de aulas. Entre as questões, pudemos encontrar graus de complexidade e dificuldade diferentes, ainda que todas exigissem que o estudante refletisse.

Está aí uma nova proposta para os professores de ensino médio e cursinhos pré-vestibulares: estimular o aluno a pensar e analisar a história de forma menos engessada da que é feita geralmente.



Cláudio Recco, formado em História pela USP, é professor há 23 anos e coordenador do Historianet (www.historianet.com.br)

* Artigo publicado originariamente na Revista Desvendando a História da Editora Escala na edição No. 9, de maio de 2006

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